Uma questão de "timing"

porUri Avnery

28 de março 2010 - 0:00
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Há semanas em que uma palavra, apenas uma, domina os noticiários. A palavra da semana é timing.

É tudo uma questão de timing. O governo de Israel insultou Joe Biden, o vice-Presidente dos Estados Unidos da América - e um dos melhores "amigos" de Israel (leia-se: alguém que é totalmente subserviente em relação ao American Israel Public Affairs Committee, o AIPAC; um lóbi norte-americano pró-israelita) -, e cuspiu no rosto do Presidente Barack Obama. E então? É só uma questão de timing.

Teria sido aceitável se o governo anunciasse a construção de mil e seiscentas novas habitações em Jerusalém Oriental no dia anterior à sua visita. E teria sido perfeito se o anunciasse três dias depois. Mas, ao anunciá-la no exacto momento em que Biden ia começar a jantar com Bibi [Netanyiahu] e Sarah'le - este sim, foi um péssimo timing.

A questão nem tem importância. Mil habitações em Jerusalém Oriental, ou dez mil, ou cem mil, que diferença fazem? A única coisa que importa verdadeiramente é o timing.

Tal como disse o francês: é pior do que um crime, é uma estupidez.

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A palavra "estúpido" destacou-se igualmente como palavra da semana, somente ultrapassada pela palavra "timing".

A estupidez é um fenómeno aceite na política. Poderia até afirmar: para se ser bem sucedido na mesma, é necessário o seu quê de estupidez. Os eleitores não simpatizam com os políticos demasiado inteligentes. O político, quando é tolo, até parece "cá dos nossos".

A História é um rol de disparates políticos. Têm sido escritos muitos livros sobre este assunto. Que me ocorra, a sucessão de eventos que conduziram à Primeira Guerra Mundial é a epítome destes desvarios. Uma guerra que vitimou milhões e que foi desencadeada pela acumulação de estupidez política nos seguintes estados (por ordem ascendente): Áustria, Rússia, Alemanha, França e Grã-Bretanha.

Mas até a estupidez (na) política conhece limites. Há décadas que penso sobre esta questão. Um dia, quem sabe, quando crescer, sou capaz de lhe dedicar uma tese de doutoramento.

E qual é a minha tese? Na política, tal como em outras áreas, os disparates acontecem regularmente. Mas enquanto uns são impedidos a tempo - pois podem ter consequências desastrosas -, outros não o são. Acidente ou regra?

Há uma regra certamente: quando alguém desencadeia um destes disparates e o mesmo é contrário ao espírito do regime, depressa o corrigem. No meio das bolandas burocráticas, alguém começa a pensar: "Esperem lá, isto não está bem!" E uma vez nas instâncias superiores, depressa se decide que tal acto é um desvario.

Porém, não há travões que refreiem o desvario quando este está de acordo com o espírito do regime. Circula de secretária em secretária como algo absolutamente natural. Sem sinal vermelho. Sem alarme. Até bater no muro.

Recordo-me da primeira vez que esta regra me ocorreu. Em 1965, o presidente da Tunísia, Habib Bourguiba, deu um passo corajoso: apelou ao reconhecimento de Israel por parte dos árabes num discurso que teve lugar em Jericó - à época sob administração jordana -, num campo de refugiados. Tal apelo causou um escândalo considerável em todo o mundo árabe.

Um correspondente israelita dava conta, algum tempo depois, numa conferência de imprensa na sede da ONU, de que Bourguiba havia apelado à destruição de Israel. Isto soou-me estranho. Fiz diligências e perguntas e descobri que o oposto era a verdade: o repórter havia, erradamente, transformado o Não num Sim.

Como é que isto pôde acontecer? Se o jornalista se tivesse enganado e dito o contrário, por exemplo, que Gamal Abd-el-Nasser tinha apelado à aceitação de Israel por parte da Liga Árabe, a notícia teria sido imediatamente abafada. Ter-se-iam acendido todas as luzes vermelhas de todos os semáforos. E alguém teria dito: "Esperem lá, há aqui qualquer coisa que não bate certo. Vejam lá isso outra vez!" Mas no caso de Habib Bourguiba ninguém deu pelo erro. Haverá algo mais lógico do que um líder árabe apelar à destruição de Israel? Declarações como esta não requerem verificação.

Foi isto o que aconteceu agora em Jerusalém. Todos os funcionários do governo sabem que o primeiro-ministro nacionalista está a pressionar no sentido de uma "israelização" de Jerusalém Oriental; que o Ministro do Interior, nacionalista e extremista, redobra estas pressões; e que o Mayor de Jerusalém, um super-nacionalista, quase se baba quando imagina um bairro hebraico no Monte do Templo. Que motivos, então, teria um burocrata para adiar a confirmação de um novo bairro hebraico em Jerusalém Oriental? Só por causa da visita de um fala-barato norte-americano?

Por conseguinte, o timing não é importante. O que é importante é a questão em si.

* * *

Nos últimos dias da sua administração, Bill Clinton divulgou um plano de paz para a região com o qual pretendia compensar oito anos de reveses e prestar reverência aos sucessivos governos israelitas. O plano era em boa medida razoável, mas incluía uma bomba-relógio.

Clinton propôs para Jerusalém Oriental a integração dos territórios judeus no Estado de Israel e a integração dos territórios árabes no que viesse a ser o Estado da Palestina. O então Presidente dos Estados Unidos da América partiu do princípio - correctamente, na minha opinião - de que Yasser Arafat estava pronto para aceitar tal compromisso - o qual significava a integração em Israel de alguns dos bairros hebraicos recém construídos em Jerusalém Oriental. Mas Bill Clinton não teve a sagacidade necessária para prever as consequências da sua proposta.

Em termos práticos, este plano constituiria para o governo israelita um claro convite à intensificação do processo de construção de colonatos tendo em vista a sua integração territorial. Tanto assim que os governos israelitas têm investido neste mesmo processo, desde então, todos os seus recursos. E como o dinheiro é inodoro, foi convidado a investir todo e qualquer proprietário de casino judeu nos Estados Unidos da América, e todo e qualquer proxeneta judeu na Europa. E suspendeu-se, a bem desta causa sagrada, a seguinte imposição bíblica: "Não trarás para a casa do Senhor teu Deus, sob qualquer voto, nem o salário da prostituta nem o aluguer do cão [do sodomita], porque uma e outra coisa são igualmente abomináveis ao Senhor teu Deus" (Deuterónimo 23:18).

O ritmo deste processo aumentou agora ainda mais, uma vez que não existe melhor forma de obstar à paz do que construir novos colonatos em Jerusalém Oriental.

* * *

Aqueles que têm interesses e parcerias na região compreendem-no muito bem. Não há paz sem um estado palestiniano independente, não há estado palestiniano sem Jerusalém Oriental. Esta asserção é perfeitamente unânime entre os palestinianos - da Fatah ao Hamas -, entre os árabes - de Marrocos ao Iraque - e entre os muçulmanos - da Nigéria ao Irão.

Não haverá paz se a bandeira palestiniana não drapejar sobre Haram al-Sharif, os santuários do Islão aos quais chamamos Monte do Templo. E esta é uma regra blindada. Os árabes poderão chegar a um acordo acerca dos refugiados - por doloroso que seja -, das fronteiras - também dolorosamente - e das questões de segurança. Mas não poderão chegar a um tal acordo no que diz respeito a Jerusalém Oriental enquanto capital da Palestina. Convergem aí todas as paixões nacionais e religiosas.

É aí que deve agir quem pretende dar cabo de qualquer possibilidade de haver paz. No passado, os colonos e os seus apoiantes planearam fazer explodir as mesquitas do Monte do Templo - e provavelmente estão a planear fazê-lo neste preciso momento, pois sabem que os acordos de paz incluiriam o desmantelamento de (pelo menos) uma boa parte dos colonatos - de modo a causar uma conflagração mundial que reduzisse a cinzas, de uma vez por todas, qualquer réstia de paz.

Os indivíduos menos extremistas sonham com o arrastamento da limpeza étnica de Jerusalém Oriental através da chicana administrativa, da demolição de casas, da negação dos meios de subsistência e da condenação dos árabes a uma vida miserável. A direita moderada deseja, somente, ocupar todo e qualquer milímetro quadrado de Jerusalém Oriental com casas para colonos. O objectivo é sempre o mesmíssimo.

* * *

Obama e os seus conselheiros têm, como é óbvio, conhecimento desta situação. De início acreditavam, nesciamente, que era possível falar manso a Netanyahu e C.ª, convencê-los a pôr fim à construção desenfreada, tudo para facilitar o início das negociações em torno da solução dos dois estados. Depressa o reconheceram impossível sem o exercício de uma pressão maciça, mas não estavam preparados para tal.

Obama rendeu-se depois de armar uma briga tão curta quanto patética: concordou com o decepcionante "congelamento" da construção de colonatos na Cisjordânia - onde as máquinas têm trabalhado com entusiasmo para satisfação dos colonos, cujas manifestações cessaram.

Nem sequer se ensaiou uma farsa em Jerusalém: Netanyahu disse a Obama, muito simplesmente, que ia autorizar mais colonatos na cidade ("como em tel Aviv") e este aceitou com uma vénia. Quando os funcionários governamentais israelitas anunciaram, na semana passada, o grandioso plano de construções para "Ramat Shlomo", não estavam a comprometer nada do que se projectara. Só permaneceu a questão do timing.

* * *

Para Joe Biden, é uma questão de honra. Para Mahmoud Abbas, é uma questão de sobrevivência.

Abbas foi forçado a aceitar negociar com o governo de Netanyahu, sob considerável pressão por parte dos norte-americanos e dos seus agentes - os governantes dos países árabes -, ainda que tais negociações sejam "de proximidade", um eufemismo para "negociações à distância".

Parece-nos claro que nada resultará destas negociações para além de mais humilhação para os palestinianos. É muito simples: quem constrói em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia está a anunciar, logo desde o início, que não haverá qualquer hipótese de compromisso. Pois nenhum israelita no seu juízo perfeito investiria biliões num território que pretendesse entregar ao Estado Palestiniano. Alguém que está a comer o queijo (e tem a faca) não o pode negociar de boa fé.

Ainda hoje, nesta adiantada hora, Abbas e a população palestiniana mantêm a esperança de que algo benéfico advirá de tudo isto: os EUA vão reconhecer as suas razões e exercer, finalmente, uma pressão concreta sobre Israel de modo a implementar a solução dos dois Estados.

Mas Biden e Obama não dão muitas razões para haver esperança. Limparam a cuspidela do rosto e sorriram polidamente.

Como reza o ditado: "quando se cospe na cara do fraco este faz de conta que está a chover". Aplicar-se-á o mesmo ao presidente do país mais poderoso do mundo?

13/03/10

Uri Avnery é um escritor israelita e activista da organização pró paz Gush Shalom. Avney é ainda um dos autores do livro The Politics of Anti-Semitism, da CounterPunch.

Tradução de Pedro Sena

Uri Avnery
Sobre o/a autor(a)

Uri Avnery

Escritor israelita, jornalista, fundador do movimento de defesa da paz Gush Shalom.
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