Em 1974, Portugal saía de uma traumática guerra colonial de 13 anos, travada em simultâneo em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, e de 48 anos de ditadura fascista que a sustentou. O 25 de Abril encerrou a ditadura e, com ela, o império colonial. Portugal deixava, objetivamente, de ser uma potência imperial autoritária e vetusta para ser um país europeu, democrático e periférico.
Esse percurso histórico tem uma consequência social concreta. Em Portugal, o processo de democratização, a consagração de direitos, liberdades e garantias, o aprofundamento da modernização económica e das condições de vida, e a integração europeia, institucional e imaginada, aconteceram praticamente em simultâneo. Para uma parte significativa da população, estas realidades não se distinguem, fundiram-se na mesma experiência histórica. O resultado é um nível de identificação com a Europa que não tem, praticamente, paralelo na maioria dos outros Estados-membros. Trata-se de um dado sociológico com peso político próprio, que qualquer estratégia de esquerda tem de levar a sério.
A descrição não dispensa uma leitura crítica. A esquerda atua sobre a realidade conhecendo-a. A modernização económica portuguesa foi conservadora: gerida por uma estrutura oligárquica fechada – uma jaula oligárquica, nas palavras de Francisco Louçã, que concentrava a propriedade dos meios de produção num número reduzido de grupos económicos e excluía as classes populares de qualquer participação real nos frutos do crescimento. O período revolucionário tentou romper esse modelo através de nacionalizações, reforma agrária e direitos laborais. A rutura foi real, mas parcial e temporária: as décadas seguintes trouxeram revisões constitucionais, a reversão das nacionalizações, sucessivas vagas de privatizações e liberalizações, e três programas de ajustamento com o FMI. Como demonstra Alexandre Abreu na Análise Social, Portugal transitou de uma democracia de alta intensidade para um regime social-liberal com traços semiperiféricos persistentes – com avanços na proteção social, mas com recuos profundos na democratização económica. A integração europeia foi parte constitutiva central desse processo, não um mero enquadramento externo.
Portugal é, proporcionalmente, o país europeu com maior número de emigrantes. Segundo o Observatório da Emigração, existem hoje cerca de 2,1 milhões de portugueses espalhados pelo mundo – a maioria em países da União Europeia. Para eles, as decisões tomadas em Bruxelas regulam o acesso ao trabalho, à segurança social, à portabilidade das pensões, à igualdade de tratamento. A esquerda que não tem uma estratégia europeia não tem uma estratégia para esta parte da classe trabalhadora portuguesa – e é precisamente por isso que a questão europeia não pode ser tratada como secundária ou defensiva.
Os governos europeus, através das instituições da UE, impuseram programas de austeridade, constrangeram a democracia orçamental dos países periféricos, aprofundaram a desindustrialização e a desigualdade entre Estados no quadro do Mercado Único. Este diagnóstico é correto, e a esquerda tem a obrigação de o dizer com clareza. Mas reconhecer esse facto não resolve a questão política central: as decisões que afetam os trabalhadores portugueses continuam a ser tomadas nessas instituições, independentemente da posição que a esquerda ocupe face a elas.
A questão não é, portanto, normativa. É tática e estratégica. Os problemas que a esquerda quer resolver – a concentração de capital, a erosão dos direitos laborais, a crise climática, o crescimento do autoritarismo, a guerra – operam a uma escala que ultrapassa o Estado nacional. Uma esquerda que se confine ao quadro nacional perde capacidade de intervenção real sobre os processos que efetivamente determinam as condições de vida dos trabalhadores.
O Bloco de Esquerda integra o The Left no Parlamento Europeu e a ELA – plataformas de coordenação entre forças progressistas, sindicatos e movimentos sociais de toda a Europa. É nesses espaços, com programa e com aliados, que se disputa uma agenda alternativa: emprego com direitos, transição climática justa, reindustrialização verde, segurança social pública, autonomia estratégica e defesa do Direito Internacional e da paz.
A esquerda tem uma tarefa dupla: disputar uma ideia de país e uma ideia de Europa. As duas são inseparáveis. Não para defender o que existe, mas para construir uma correlação de forças diferente.
Artigo publicado em Anticapitalista #86 – Maio 2026