Uma Escola que ensine a pensar

porGabriel Coelho

08 de fevereiro 2026 - 17:32
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O facto é que a escola continua, demasiadas vezes, a confundir o aprender com o decorar, o conhecer com o repetir e o pensar com o obedecer.

O teste de Filosofia da minha filha foi um teste banal, apenas mais um numa longa e fastidiosa cadeia de fretes que a Escola tanto se empenha em apresentar a quem se deveria servir dela, mas, no fim de contas, apenas a serve. Mas, exatamente por isso, foi um momento inquietante. A dada altura pede-se: “Apresenta o primeiro argumento aduzido por Descartes para provar a existência de Deus.” Não se pede uma crítica, não se pede uma avaliação da validade do argumento, não se pede sequer que o aluno diga se o considera convincente. Pede-se apenas que o reproduza corretamente. Como quem pede a tabuada. Como quem pede uma receita de pudim de leite.

É um pequeno detalhe, eu sei, mas diz muito sobre um problema muito maior. O facto é que a escola continua, demasiadas vezes, a confundir o aprender com o decorar, o conhecer com o repetir e o pensar com o obedecer. A escola pública moderna, como Ken Robinson tanto gostava de nos lembrar, nasceu no século XIX, moldada pelas necessidades da Revolução Industrial. O intuito era formar trabalhadores obedientes, pontuais, padronizados, treinados para executar tarefas e nunca para questionar objetivos. O currículo era (é) organizado em disciplinas estanques, os exames eram (são) altamente padronizados, a hierarquia da sala de aula era (é) monolítica. E tudo isto faz sentido num modelo de fábrica, numa perspetiva industrial de há duzentos anos. O que ninguém me consegue explicar é que sentido isto faz num mundo que precisa, hoje em dia mais do que em qualquer outra altura da História humana, de pensamento crítico, criatividade e autonomia intelectual.

A Filosofia, ironicamente, deveria ser precisamente o lugar onde este modelo morreria. Mas parece que não. O que vemos é a sua sobrevivência mais cínica. O que vemos é a Escola atual transformar a Filosofia numa simples catequese, onde os alunos aprendem “o que os filósofos disseram”, mas nunca, oh não, nunca serem convidados a fazer o que os filósofos fizeram: pensar com, pensar contra, pensar além, ou, até quem sabe, pensar melhor. Eu sei, alguém virá, ao ler as minhas palavras rasgar as vestes pela nossa, como está tanto em voga hoje em dia dizer-se, “matriz judaico-cristã”. Durante séculos, a escola foi precisamente o que descrevi. Um espaço de preservação dogmática. Os monges copistas não eram educadores no sentido moderno. Bem pelo contrário, eram guardiões da ortodoxia. Copiavam os textos sagrados, transmitiam as verdades reveladas, treinavam a repetição fiel. Questionar não era (é) aprender. Era, e parece que ainda é, uma heresia. A escola não existia (existe) para formar cidadãos livres, mas sim fiéis obedientes e submissos.

Quando hoje se pede a um aluno que “apresente o primeiro argumento de Descartes para provar a existência de Deus” sem qualquer distanciamento crítico, estamos perigosamente perto desse modelo. Não importa que o argumento seja frágil, circular ou filosoficamente contestado desde o século XVII. O que importa é que o aluno saiba dizer o que é suposto dizer. Como um bom monge copista. Isto torna-se, a meu ver, particularmente grave numa escola pública, que deveria ser laica, não apenas no sentido jurídico, mas no sentido epistemológico do termo. Nenhuma ideia deve estar acima do escrutínio racional. Não estou com isto a defender que um ensino verdadeiramente laico seja aquele que omite Deus. Seria sim aquele que fala de todos os Deuses sem nunca os proteger da crítica e do escrutínio lógico.

Sérgio Niza, o grande pensador do Movimento da Escola Moderna, há muito anos que nos alerta para esta questão. Para Niza, a escola não deve ser um local de transmissão de verdades prontas, mas uma comunidade democrática de aprendizagem, onde o conhecimento seja construído, discutido, problematizado. O aluno não deve ser um recipiente, mas sim um sujeito. O professor não deve ser um sacerdote do saber, mas um mediador, um organizador de condições para que o pensamento aconteça. Numa escola assim, a pergunta do teste da minha filha teria contornos completamente diferentes. Não “apresenta o primeiro argumento de Descartes”, mas algo como “O argumento de Descartes é válido?”, “Que críticas lhe podem ser feitas?”, “Consegues pensar num contraexemplo?”, “Que pressupostos metafísicos estão escondidos neste argumento?”. E, sobretudo, “Conversa com os teus colegas, os teus professores, a tua família e amigos sobre isto”.

E, já agora, não! Isto não seria “doutrinar no ateísmo”, como parece que oiço alguns a gritar. Seria exatamente o contrário. Seria ensinar a pensar sem rede, sem garantias, sem verdades sagradas. Seria ensinar a duvidar, como o próprio Descartes dizia fazer, ainda que depois não o fizesse sempre até ao fim. Uma escola não deve ser contra a religião, contra nenhuma delas. Deve sim ser contra o dogma. Deve entender o conhecimento como um processo, não como um produto. Deve formar cidadãos críticos, não repetidores competentes. Deve finalmente preferir alunos que erram quando pensam a alunos que acertam quando decoram. Enquanto a escola continuar a avaliar a fidelidade à resposta certa em vez da qualidade do pensamento, continuará a falhar-nos a todos na sua missão democrática. E cada teste como o da minha filha será mais uma página copiada à mão, bonita, limpa, correta, de um livro que já devia ter sido criticamente reescrito há muito tempo.

Gabriel Coelho
Sobre o/a autor(a)

Gabriel Coelho

Professor de Matemática e Ciências Naturais, co-criador do podcast Quarteto dos Três Ateus Miguel e Gabriel
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