Os anúncios aos festivais de verão, os slogans das cervejeiras e dos refrigerantes, o universo da moda e toda a propaganda em torno da nova indústria das “experiências” fazem crer, aos olhos de qualquer pessoa, que o verão de um jovem português é pautado por uma apoteose de diversão sem limites, festas e excessos. No meio desse imaginário construído, há uma realidade que escapa à publicidade que ocupa paragens de autocarro, vídeos do youtube, intervalos das novelas e timelines das redes sociais. O verão dos jovens estudantes é marcado pelo desespero de não conseguir um quarto na cidade onde estará a estudar em setembro.
É sempre motivo de comemoração a entrada no Ensino Superior. No ano de 2011, tive o prazer e o privilégio de viver esse momento com os amigos e a família. Não fui estudante deslocado, mas conheci de perto a realidade de muitos colegas que, na primeira semana de aulas, resolveram o seu problema de alojamento. Os poucos que receberam resposta positiva dos serviços de ação social instalaram-se na residência ao lado da faculdade. Os restantes, que eram a maioria, sabiam que contavam com uma oferta na cidade do Porto que os pais conseguiam suportar, ainda que com as dificuldades económicas subjacentes ao acesso ao Ensino Superior. Essa realidade transformou-se de tal forma que, nos dias que correm, a procura por um quarto é cada vez mais difícil e repetida. É um ciclo sem fim: oferta cada vez mais apertada, arrendamentos informais, fim dos contratos em junho e julho, péssimas condições dos quartos e valores proibitivos para 99% da população jovem portuguesa.
Passam os anos e os anúncios do Governo para o alojamento estudantil tornam-se cada vez mais ferrugentos. A promessa do aumento da oferta pública de residências estudantis continua a servir para embrulhar estudos técnicos, cálculos, encontros com autarquias um pouco por todo o país, menos para avançar com a sua concretização. Enquanto o atraso do Governo se torna cada vez mais incomodativo, o investimento privado em residências estudantis de luxo aumenta e estes empreendimentos ocupam as zonas por excelência para este serviço: as periferias das faculdades, institutos politécnicos, centros de investigação e pólos universitários. Quando as políticas públicas são inexistentes, o mercado trata sempre de privatizar o sistema.
Este ano nada mudará. O Governo não tem nenhuma solução preparada para o próximo ano letivo que se avizinha, as famílias já estão a fazer contas à vida e ainda nem sabem em que instituição de ensino superior os seus filhos serão colocados. Em setembro? Teremos com certeza a Ministra da área a congratular-se pelo aumento do número de estudantes a ingressar no Ensino Superior. Convém, sobre isso, explicar aos responsáveis políticos que o direito ao acesso à educação e, concretamente, ao ensino superior - consagrado na Constituição da República Portuguesa - não se esgota no ingresso. Sempre que um estudante ingressa mas se vê impedido de encontrar alojamento, pagar propinas, custos inerentes à sua frequência no curso, está a ser-lhe vedado esse mesmo direito. Mas há uma certeza: será com certeza mais um verão à procura de quarto sem certezas de nada.