Um povo que espera

porMiguel Martins

25 de abril 2023 - 17:54
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Os partidos do chamado “arco da governação” sempre se empenharam em destruir o legado de Abril, desmantelando os mecanismos do Estado Social e dos serviços públicos como os conhecemos, através da descapitalização do Serviço Nacional de Saúde, da Escola pública ou da Segurança Social.

Assinala-se, este ano, mais um aniversário do 25 de Abril. São já 49 anos desde a Revolução popular que pôs fim à ditadura fascista que durante décadas censurou, violentou e matou o povo português. Com o 25 de Abril, o povo português libertou-se das amarras e das mordaças do fascismo, com o triunfo da liberdade e da democracia sobre a opressão, o silêncio e o terror.

A importância de Abril é indiscutível. É um marco da nossa História, enquanto povo e país: liberdade, democracia, igualdade, direitos, melhoria das condições de vida, entre tantas outras conquistas alcançadas com a Revolução. Ainda assim, continuamos à espera. Passados 49 anos, somos um povo que espera.

Veja-se o seguinte. Eu, enquanto jovem com 22 anos, estou prestes a viver a segunda grande crise económica da minha vida. Em pouco mais de uma década, a minha geração, "a mais qualificada de sempre", encontra-se, uma vez mais, perante uma crise. Tal como em 2011 e nos anos que se seguiram, é-nos hoje dito que não há alternativa, que "temos que ser duros" e enfrentar a realidade. O corte de salários e de pensões, a perda de emprego e a precariedade laboral, serviços públicos incapazes de dar resposta às necessidades porque não têm investimento - será tudo isto regra ou resultado da falta de coragem política?

As políticas austeras que marcam as nossas vidas não surgiram apenas agora, nem tão pouco apenas quando uma crise se intensifica. Pelo contrário, são características do sistema neoliberal dominante, em que o lucro de poucos se sobrepõe à vida dos povos. Em relação ao 25 de Abril, é possível ver o reflexo disso mesmo.

Desde a Revolução, quem se sentiu incomodado tem estado na linha da frente do ataque às suas conquistas. Os partidos do chamado “arco da governação” sempre se empenharam em destruir o legado de Abril, desmantelando os mecanismos do Estado Social e dos serviços públicos como os conhecemos, através da descapitalização do Serviço Nacional de Saúde, da Escola pública ou da Segurança Social, em nome de metas financeiras. A obediência constante dos sucessivos Governos às regras e tratados europeus, na procura de serem "os melhores alunos" da União Europeia, levou a que hoje vivamos um momento crítico da história.

Perante as contradições do sistema capitalista e, consequentemente, do falhanço do modelo neoliberal, o povo português vê os seus rendimentos cortados, os preços da habitação, luz e água aumentar, os seus direitos oprimidos e as suas condições laborais piorarem - tudo isto em nome da contenção económica (o "é assim que tem que ser", como se não existissem alternativas).

Oportunisticamente, os herdeiros da ditadura fascista apregoam discursos de ódio, enganando o povo com falsas soluções, enquanto culpam setores da sociedade, mais desfavorecidos, pela falta de condições e qualidade de vida dignas - e, ao mesmo tempo, atacam Abril e as suas conquistas com toda a força.

Ainda que não pareça, o modelo neoliberal e a extrema-direita são a cara e a coroa da mesma moeda, sendo que o sistema capitalista continuará a adaptar-se às circunstâncias e aos momentos históricos, seja através dos partidos do “centrão”, seja através de forças políticas fascizantes.

Face a tantos ataques ao legado de Abril, não podemos hesitar, nem recuar. Sabemos que já muito foi feito com o 25 de Abril, mas ainda há muito a fazer. Num momento em que os ataques à memória da Revolução se intensificam, urge reafirmar o compromisso em continuar a estar na primeira linha, em defesa de Abril e das suas conquistas. Cabe a cada uma e a cada um de nós defender intransigentemente a liberdade, sabendo que a construção de um outro mundo, de iguais, é possível – é essa a nossa responsabilidade. Continuemos a luta!

25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!

Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 20 de abril de 2023

Miguel Martins
Sobre o/a autor(a)

Miguel Martins

Sociólogo. Mestre em Geografia. Estudante na Universidade do Minho
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