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Um país em Guerra e Paz

PS e PSD assinam o acordo para uma maior descentralização de competências para as autarquias, acenando o doce-cenoura da descentralização a um país que tem a regionalização como seu desígnio constitucional.

O carácter épico de uma obra dificilmente dispensa a grandeza dos vários volumes. É necessário apregoar o percurso, fazer distância para o fim da linha, permanecer. A liderança de Rui Rio no PSD pode parecer uma prova de obstáculos que dificilmente verá a meta com olhos de triunfo, consciência agravada por um percurso sinuoso traçado pelos próprios parceiros de partido, mais interessados numa prova de estafetas. Passa o testemunho. Paz. A tarde de hoje, que fechará politicamente na formalização do acordo do PSD com o Governo sobre descentralização e sobre o quadro comunitário de fundos estruturais "Portugal 2030", prova que Rio entra a pés juntos sobre o determinismo histórico e o fatalismo do épico de Tolstói e tenta escrever um pequeno romance com o inimigo.

O livre arbítrio de Rui Rio favorece a aproximação de adversários. Guerra. Pedro Santana Lopes anuncia-se traído e, internamente, o período de tréguas chega ao fim. A forma como o líder do PSD não procurou evitar a ruptura, negando os nomes escolhidos por Santana Lopes para o Conselho Estratégico Nacional e para as Relações Internacionais no partido, diz bem sobre o seu sentido de arrumação: antes quebrar já que torcer depois, pacto para que te quero. Se no Congresso, há dois meses, todos os caminhos iam dar a uma romaria de solidariedade que desembocaria na proporcionalidade e representatividade das correntes internas do partido no Governo-sombra, dois meses volvidos e a guerrilha interna no PSD estará acesa enquanto Luís Montenegro não desatar a apagar os sinais de fogo para depois indicar o caminho. Exige-se a tal criatividade de Deleuze para escrever história, aquela onde não se hipoteque a liberdade perante o fatalismo determinista. Quem quer fazer amigos no PSD?

Aparentemente, António Costa. Enquanto se entretém a medir forças com os seus parceiros de coligação parlamentar, descontando quatro décimas ao compromisso reclamado pelo BE para a meta do défice, António Costa abraça Rui Rio como um homem de Estado e faz prova de vida à Direita. A ideia de ressuscitar o bloco central de 83-85, de tão má memória para o PS pela forma como desintegrou a sua base social de apoio e permitiu a ascensão da Direita acoplada a partidos pseudo-renovadores, pode servir como "ghost-writer" de uma traição anunciada mas nunca será argumento onde se leia "arte da guerra" como uma obra que o país possa premiar. Enquanto independentistas catalães cantam a "Grândola" para Marcelo Rebelo de Sousa nas Cortes Reais em Madrid, PS e PSD assinam o acordo para uma maior descentralização de competências para as autarquias, acenando o doce-cenoura da descentralização a um país que tem a regionalização como seu desígnio constitucional. "Que já não sabia a idade", diz a canção. Este sim, um épico nacional.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 18 de abril de 2018

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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