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Um livro

Isabel Moreira escreveu e a Lápis de Memórias editou. Chama-se “Cela” e é um livro que vos recomendo.

Devia ser proibido falar de prisões com linguagem suave. Todos os discursos liofilizados sobre as prisões não falam delas, mas de fantasias e a benignidade dos discursos só serve para invisibilizar a malignidade da cela como lugar de desumanidade.

Isabel Moreira escreve sem piedade sobre o que é desapiedado. Sem a obscenidade da comiseração e sem o cinismo da apologia da heroicidade. Este livro é um mergulho na exclusão absoluta que é a condição de mulher reclusa, é uma entrada sem retorno no avesso – não sei se sombrio se translúcido – das vidas com sentido de amanhã. A cela é esse lugar de radicalização da condição de pessoa supérflua. E não há projeto nem política pública que verdadeiramente o possa redimir.

Escreve Isabel Moreira: “O nosso início tem um ritual, tem uma adaptação, tem um choque e uma banalização, tudo muito veloz. Entramos, tudo o que era nossa fica num saco, somos despojadas e encaminhadas para a Cela em novas vestes até nos ser possível uma roupa normal, entramos e ouvimos pela primeira vez o som do rodar de uma fechadura que não é nossa. É para nós. De fora para dentro. Depois vem a eternidade.”

Este despojamento não começa na sala antes da cela. Começa na vida. Os piolhos das ciganas, o estigma das brasileiras ou o cocktail entre ser puta e ser drogada é na vida que se instalam. A cela eterniza-os. E eterniza também a estranheza do mundo daquela gente que cheira muito bem e que não repousa a cabeça em fronhas que são lavadas de seis em seis meses, gente que usa uma linguagem esquisita – como ‘justa causa’ em vez de ‘causa justa’ – gente de fatinho engomado que dirige observatórios e produz regras gerais e abstratas. O rodar da fechadura da cela não põe esse mundo lá fora, porque ele vai à cela observar, fazer reportagens, formar e julgar.

A cela é esse lugar em que o rosto de cada uma, o nome de cada uma, a vida de cada uma, são banidos. Em que, como escreve Isabel Moreira, o próprio isolamento é comunitário (“querem saber do nome, de nomes de histórias, quando duas são uma numa cela dentro da Cela?”).

O que se espera do leitor é que, ao ler, saiba agoniar-se.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 24 de novembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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