Está aqui

Um casino-fantasma

Este texto trata o empreendimento que expropriou o direito ao lugar, o património, a história. Trata um casino-fantasma, do qual se desconhece os jogos de azar e da fortuna que definem o seu futuro.

O dito casino fica onde foi um dia a Calheta de Pêro Teive, nos Açores. Onde antes era mar, baía, barcos, porto de pesca.

Lembro-me muito bem da Calheta, aí cresci, mas custa-me imaginá-la, tal a dimensão do atentado. Era porto e era bairro. Era ponto de chegada e de partida. Era paisagem e era lugar.

O mar deu lugar a aterro, dando acesso à nova estrada grande, seguida de marina. Durante anos falou-se em jardim, estacionaram-se carros e fizeram-se concertos. Falou-se em equipamento cultural.

Mas o aterro deu a lugar ao empreendimento constituído por casino, hotel e centro comercial. Do empreendimento ficaram as derrapagens e o projeto falido. Da obra ficaram as paredes de betão, o atentado paisagístico, o aterro da memória e do património. E com as paredes ficou a perda do lugar, a expropriação da qualidade de vida das populações.

O aterro do património, desse fica a memória - da Calheta que remonta ao século XV, onde nasce Ponta Delgada com a sua expansão. Chegou a falar-se, por isso, faz já mais de 30 anos, no reconhecimento da Calheta como património histórico.

Perdido o património, ficou a reivindicação do direito ao lugar.

Queremos a Calheta de Volta!, foi o lema animou um movimento que se agitou há mais de dois anos. Denunciou-se o elefante que ninguém queria ver, fez-se piqueniques, petições e audições. O Governo Regional dos Açores foi interpelado para que rescindisse do contrato da concessão pública da “exploração de jogos de fortuna e azar” e tomasse a posse administrativa das infraestruturas em construção, para converter a Calheta Pêro de Teive naquilo que sempre foi o projeto original: uma zona de lazer.

A tomada de posse administrativa foi descartada, fez-se depender o destinos da Calheta de um processo de revitalização da empresa falida, que incluiu a promessa de demolição das galerias superiores, diminuindo a volumetria do edifício.

Do processo de revitalização resultou a aquisição dos créditos da empresa falida por um Fundo turístico imobiliário, o Discovery Portugal Real Estate Fund, criado em 2012 e especializado em adquirir empresas em situação de insolvência no sector do imobiliário e do turismo.

É verdade que hoje os tapumes, que dão para o lugar onde antes estava o mar, estão pintados de azul.

Os credores, essencialmente bancos, já receberam os seus créditos. E o casino-fantasma, assim como hotel e centro comercial, começou já a ser recuperado, sem se verifique qualquer sinal de demolição das galerias.

Na verdade, para quem acertou os detalhes do plano de revitalização da ASTA Atlântida - Governo, Autarquia e compradores -, “Queremos a Calheta de volta!” é promessa para ficar no esquecimento. À boa moda do centrão político, PS e PSD.

E entretanto há varias questões que ficam por responder:

Faz algum sentido ter dois casinos e não sei quantos centros comerciais (já perdi a conta, mas serão mais de 10!) para uma a população de 137 mil habitantes?

(E já nem falo dos hotéis...)

Quais os valores e os interesses envolvidos nos jogos de azar e de fortuna que moldaram a Calheta nas ultimas duas décadas. E os que definem o seu futuro?

Porque razão o governo regional não tomou, em boa hora, a posse administrativa dos terrenos?

Ou ainda, e como perguntava em 2013 Khol de Carvalho: Como subtrair a Calheta ao imperativo do lucro e do privilégio?

Diga-se que, para mim, é todo aquele betão que deveria ser demolido. Em nome do direito a lugar. Afinal, zona de lazer e vista para o mar é o mínimo que se deve exigir para quem já perdeu tanto.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora bolseira e doutoranda em sociologia. Ativista para o que faz falta
(...)