Em jeito de declaração inicial, sem qualquer tibieza de apreciação, digo que esta trágica invasão é provocada por uma aniquiladora máquina de guerra que tem por objetivo restaurar o sonho imperial dos Czares. Kiev é a “joia da coroa” como origem cultural da mãe-pátria e a Ucrânia tem um posicionamento geoestratégico como tampão do Ocidente.
Putin, formado nos serviços secretos da KGB e produto das entranhas do autoritarismo do Kremlin, chega ao poder com o cunho de salvador da pátria personificando a imagem do urso ferido pelo desmembramento da União Soviética e da deriva liberal de Yeltsin que levou a um encolhimento da economia com a destruição da sua base industrial, a uma proliferação de máfias comerciais dominantes e um forte aumento de bolsas de pobreza agravadas pelo colapso da Segurança Social e das instituições do Estado.
A Rússia de Putin é uma oligarquia de poder tirano e capitalismo selvagem que visa uma estratégia de reimplantação do passado glorioso, como que despertando da hibernação, num calculismo sequencial de jogo no tabuleiro da hegemonia mundial. Esta perigosa política de ataques militares (im)previsíveis, não calibradas por instituições democráticas, tem um impacto de “terapia de choque” como se fosse o cobro de uma humilhação. Este conflito bélico na Europa, cruel e devastador, foi aprontado como sinal amedrontador do regresso imperial e de imposição da “máquina de guerra” como ferramenta de efeitos demolidores.
Com um domínio político ininterrupto desde 2000 – uma mutação de cargo entre 2008 e 2012 por troca direta com o serviçal Medvedev – , Putin montou uma estrutura intrincada de relações internacionais capaz de negociar com a União Europeia tornando-a dependente de recursos energéticos e subordinada à “paz podre” da fictícia cordialidade; capaz de apaziguar animosidades e concertar estratégia conjunta com a China numa recomposição de frente contra o alvo a abater; capaz de afrontar o ocidente do liberalismo global pela restituição dos nacionalismos patrióticos; capaz de mobilizar a grandeza dos russos pela reconstrução da imensa Rússia com focos de arregimentação pelo patriotismo triunfalista asseverado pela invasão da Geórgia, da auto proclamação das Repúblicas da Ossétia do Sul e da Abecásia, da destituição da rebelião na Bielorrússia e conversão do líder, e da anexação da Crimeia e controle das rotas do Mar Negro e de Azov. Provocou os Estados Unidos com a intromissão direta na eleição de Trump e no hábil apoio às suas desvairadas intervenções. Deu cobertura política à chauvinista extrema-direita europeia que lhe prestou vassalagem pela propagação nacionalista. Desrespeitou regras elementares de compromissos fundacionais em organismos internacionais a que pertence – nomeadamente a ONU.
Quantos mais indícios de alvoroço eram precisos para se ajuizar a falta de confiança pessoal e política de Putin?
Que fez o Ocidente para conter o expansionismo desta potência autoritária?
Nada mais do que vangloriar-se pelo suposto fim do beligerante, com a interesseira complacência de “fechar os olhos” e manter as proveitosas relações comerciais com os oligarcas.
E agora, quase todos os países ganharam um inimigo comum à custa da desgraça e do sofrimento de um povo, à custa de uma Europa em pânico e apreensiva, à custa de um mundo de insegurança e com perda de valores universais.
Para compreendermos esta guerra exige-se ponderação de análise em diferentes perspetivas que interliguem escalas geográficas e divisões territoriais em tempos diferentes. Entendendo que o facto histórico é seletivo e vai até onde for conveniente como forma de instrumentalização do passado numa alusão maniqueísta da tradição, a verdade é que as fronteiras de toda esta região são perigosamente instáveis e sujeitas ao conflito ora reivindicado por movimentos separatistas, ora reclamado por influxos absolutistas.
Acresce dizer que ao indeterminismo histórico e territorial junta-se o demográfico e identitário. A pertença linguística, étnica, religiosa tem afinidades disseminadas com cruzamentos múltiplos que tanto delimitam a constituição de repúblicas contidas no acantonamento como determinam visões expansionistas de subjugação. A vontade das populações e o sentimento de pertença das comunidades, têm sido manietados pelos interesses e objetivos da força dominante do momento, advogando-se a ideia de que a Geografia Cultural justifica as movimentações da Geografia Política. De facto, nem a geografia desapareceu nem a história expirou.
Os desafios da atual guerra são imediatos e precisam de resposta direta, mas cuidada. Os bloqueios e as sanções devem ser cirúrgicos e direcionados a quem alimenta o regime e o conflito. Não podemos embarcar numa fúria de perseguição russófona e rejeitar uma das identidades culturais mais facultosas do mundo. Ou recusar a valia técnica e desportiva de uma das maiores e melhores escolas publicas de formação. Ou perseguir as pessoas de nacionalidade russa como se fossem bárbaros e cúmplices da tormenta. É claro que foi a Rússia que provocou a guerra e o povo da Ucrânia é que é o sofredor, mas isso não significa que o povo russo queira a guerra e que não padeça com ela. Muitos e muitas com muita coragem enfrentam o poder opressivo sujeitando-se a pesadas consequências pela afronta publica da discordância.
Por outro lado, não podemos embarcar na escalada militarista de constituir exércitos mais apetrechados e de maior dimensão como se a guerra combatesse a guerra. Precisamos de uma visão alongada no tempo e de resposta estratégica capaz de travar a lógica agressiva de crescente cólera. Quanto mais pessoas morrerem maior é o drama e mais difícil é de o travar. É certo, que assistir incrédulos à permanente imagem televisiva do sofrimento causado a milhões de seres humanos inocentes, ouvir o aflitivo som das sirenes de alerta e o estrondo das bombas, assistir ao relato de famílias despedaçadas perante a brutalidade dos factos em que muitos ficam para trás, provoca angústia, comoção e revolta. Fervilha o impulso humanista e sentimos a urgência de ter que fazer algo para parar este hediondo massacre.
Mas o que podemos e devemos defender? Não há contexto histórico que justifique a agressão de um povo, o bombardeamento de residências, de escolas, de hospitais, de vias de comunicação, a guerra contra civis, por isso, a condenação desta invasão é uma obrigatoriedade. Da mesma forma que apoiar, ou sequer equacionar, a intervenção da NATO é uma irresponsabilidade e configura um outro atentado contra a humanidade. Originalmente concebida como uma aliança defensiva e colaborativa, a NATO tornou-se numa força militar primária de guerra apostada em propagar o poder norte-americano. Como podemos atribuir à NATO a missão de parar o antagonismo, se o seu historial recente é o de gerar conflitos. Veja-se o que se passou na Sérvia, Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia. Por outro lado, é impossível ignorar o perigo de uma escalada catastrófica para a humanidade com o risco real de uma terceira guerra mundial.
A ONU, que neste caso se tem revelado impotente para atestar a razão da sua existência, tem aqui um papel fulcral a assumir no âmbito das competências e objetivos da sua fundação. Exige-se da ONU uma decisiva intervenção no sentido de criar condições para que sobre a sua égide se realize uma Conferencia de Paz, capaz de concertar compromissos que travem a agressão ao povo ucraniano.
O movimento pela paz precisa de ser animado para se reafirmar. Os povos de todo o mundo precisam de declarar o seu direito a participar na criação de uma nova ordem mundial, baseada na paz, cooperação e colaboração superando o imoral confronto e a desastrosa competição.
Os países europeus têm a obrigação de receber qualquer pessoa que foge da guerra, como o devia ter feito com outras guerras, dado que um refugiado é sempre alguém que merece ser acolhido com a dignidade de ser pessoa.
Seja qual for a visão da política mundial, perceciona-se que a ideia do pensamento marcado pela prevalência do discurso racional foi destituída e estamos a entrar num quadro de ostentação de rivalidades e conflitos cujo desfecho de situações similares é pouco recomendável, mesmo muito arriscado.
Esta guerra invocando o passado, convoca-nos para o presente e condiciona o futuro. O mundo está em ebulição. A política dos Blocos antagónicos tende a proliferar com a intransigência à diferença e a aversão à mudança, exacerbando posições. Num mundo de complexidade crescente, urge (re)criar uma democracia plural assente nos valores universais e na mundividência da globalização das culturas.
Adaptado de artigo publicado no “Jornal de Barcelos”