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Tudo por uma pastilha

As contas do próprio governo dizem-nos que devemos esperar uma taxa de crescimento média de cerca de 1% até 2050. Uma promessa de miséria a 40 anos.

Sou de uma geração que cresceu a comer o gelado Epá por causa da pastilha que vinha no fundo do cone. A pastilha era tão crucial que pedíamos para trocar se a cor não fosse a preferida. Comprar uma pastilha ficava muito mais barato, já sabíamos, mas não era a mesma coisa. Os tempos mudaram e o gelado adaptou-se, a pastilha é já sem açúcar, mas continua lá.

O orçamento que o governo propôs não é nada mais, nem nada menos. É, afinal de contas, um Epá: serve-se gelado, cheio de "malabarismos" e com a promessa de uma suposta pastilha que havemos de ter direito daqui a muitos, muitos anos. Se dúvida houvesse, são as contas do próprio governo que nos dizem que devemos esperar uma taxa de crescimento média de cerca de 1% até 2050. Uma promessa de miséria a 40 anos, portanto. É o aumento de impostos que vem para ficar pela mão de quem repetiu à exaustão que jamais seguiria esse caminho. É o empobrecimento de quem trabalha ou trabalhou anos a fio para ter uma reforma. É a desistência de serviços públicos dignos desse nome na educação e na saúde. Tudo isto em nome de quê? O primeiro-ministro chamou-lhe coragem. Coragem teria sido apresentar estas medidas antes de ir a votos. Coragem é ultrapassar o medo e não tentar incuti-lo nos portugueses. Coragem é rejeitar a intimidação e não ser-se subserviente. Coragem foi o que faltou quando o governo voltou atrás na proposta de retenção na fonte de 21,5% para os accionistas não-residentes de empresas registadas no offshore da Madeira. Este é, no fim de contas, um orçamento que revela o medo de quem não teve a coragem de falar verdade em tempo certo.

Um orçamento serve um projecto político, um programa, uma proposta para o país. No orçamento de 2012 é difícil vislumbrar outro caminho que não seja o da austeridade. É aqui que começa a falhar a imagem do gelado. Se o orçamento fosse um Epá, podíamos passar etapas e apressar o processo para chegar logo à pastilha. Pelo contrário, a proposta que agora foi aprovada deixa-nos antes um forte sabor amargo, mas não nos rouba a capacidade de resistir. Dia 24, com a greve geral, dar-se-ão passos no sentido da luta. Não nos deixemos atrasar.

Artigo publicado no jornal As Beirasa 12 de Novembro de 2011

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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