Trump e a gangsterização do imperialismo

porDaniel Moura Borges

10 de janeiro 2026 - 15:28
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O presidente dos Estados Unidos da América age como um gangster dos anos 50, usa os mesmos esquemas para obter o que quer e aplica o seu próprio tipo de imperialismo gangsterizado.

Quem já viu o filme Goodfellas percebe perfeitamente a cartilha de Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos da América age como um gangster dos anos 50, usa os mesmos esquemas para obter o que quer e aplica o seu próprio tipo de imperialismo gangsterizado. No filme de Scorcese, o gangster Henry Hill, interpretado pelo imortal Ray Liotta, explica exatamente como funciona o esquema de proteção:

O tipo (dono do negócio) agora tem o Paulie como parceiro. Qualquer problema, fala com o Paulie. Problema com as contas? Fala com o Paulie. Problema com os polícias ou entregas, pode ligar ao Paulie. Mas agora o tipo tem de arranjar o dinheiro do Paulie todas as semanas, não importa o que acontecer. O negócio está mau? Vai-te lixar, paga-me. Incêncido? Vai-te lixar, paga-me”.

Um mafioso que quer ganhar dinheiro facilmente só tem de seguir estas instruções. Escolhe um negócio, ameaça a segurança desse negócio e depois oferece-se para assegurar a segurança do negócio. Trump, que é filho de Nova Iorque, aprendeu bem com os filmes de gangsters que retratam o crime organizado na sua cidade. Aplicou o esquema de proteção ao imperialismo para conseguir assegurar que o petróleo da Venezuela cai nas mãos dos oligarcas estadunidenses.

Começou com as ameaças, mas ficou frustrado por não ser ouvido. Depois Nicolás Maduro imitou a sua dança, e Trump ficou irritado (para os mais distraídos, isto não é uma metáfora). Então decidiu bombardear uma cidade e raptar Maduro. Escolheu o seu alvo e ameaçou a sua segurança. Enquanto os líderes da Europa festejavam a agressão imperialista, que é uma flagrante violação do direito internacional, Trump decidiu colocar em prática a última parte do esquema. Negociou com a vice-presidente de Maduro e manteve tudo igual, menos uma coisa: chegou a um acordo para receber entre 30 a 50 milhões de barris de petróleo na Venezuela.

Agora, a Venezuela está “sob proteção” de Trump. Uma “proteção” muito pouco segura. No ar, fica sempre a vaga ameaça de violência caso a Venezuela discorde desse acordo e pense em não cumprir. “Mas agora o tipo tem de arranjar o dinheiro do Paulie todas as semanas, não importa o que acontecer”, dizia Henry Hill.

E agora cria uma ameaça cada vez mais concreta sobre a Colômbia, Cuba e Gronelândia. Faz mesmo lembrar um gangster que chega a um restaurante e diz ao dono: “O café da esquina ardeu a semana passada, seria uma pena se o mesmo acontecesse aqui”. E procura sempre escalar o conflito: ainda esta quarta-feira, os Estados Unidos da América apreenderam um navio russo que transportava petróleo.

Esta estratégia revela duas coisas. A primeira é que a ganância imperialista nada tem que ver com democracia, nem mesmo com o regime autoritário de Maduro. Desse ponto de vista, os líderes europeus, resguardados na sua cobardia, ficaram sem chão. A segunda é que entramos numa nova era de tensões internacionais, em que os Estados Unidos da América são novo protagonista com um estilo de imperialismo gangsterizado. Não há aliados, nem inimigos. Nem paz, nem guerra, nem direito internacional. Há a taxa de lucro, a lei da bala e a extorsão. E Trump é um gangster americano.

Daniel Moura Borges
Sobre o/a autor(a)

Daniel Moura Borges

Militante do Bloco de Esquerda.
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