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Três razões

Começou a eleição do próximo presidente da República. Para quem, à esquerda, ainda não decidiu ou pensa votar Marcelo Rebelo de Sousa no dia 24, deixo três notas.

1. A "geringonça", criada para travar o programa de empobrecimento de PSD/CDS, foi um exemplo da capacidade de convergência entre o PS e os partidos à sua esquerda. A marca que deixou foi a de um acordo fundado em medidas concretas e não em vazias geometrias de poder. Em 2016, a candidatura da Marisa Matias puxou por essa convergência, deu-lhe voz. Em 2021, sabemos que contamos com a sua determinação para construir as pontes que valham para proteger o país, sem sectarismos mas com exigência.

2. Para haver convergências é necessário um projeto político. E o projeto político de Marcelo é a continuidade. A sua capacidade de diálogo esgota-se quando insiste em defender os lucros do setor privado da saúde, quando desvaloriza a crise ambiental, quando se conforma com o privilégio da banca ou quando defende as leis laborais da troika. Marcelo será sempre a convergência em torno do que existe, e por isso o presidente foi tão importante na relação de forças que impediu novos entendimentos à esquerda sobre a saúde, o trabalho ou a banca. Em 2021, o SNS precisará, como nunca, de um entendimento, um pacto à esquerda, que lhe permita recuperar a capacidade e chegar a todas as pessoas que dele precisam. Esse é o Contrato para a Saúde, proposto pela Marisa desde o primeiro dia da sua campanha.

3. Chamemos os bois pelos nomes. Ventura é um oportunista, mas um oportunista que integra um movimento internacional de extrema-direita, onde está acompanhado por Trump (que procura imitar em palavras e gestos) e Bolsonaro, mas também por Le Pen, por Salvini, entre outros movimentos políticos protofascistas, como o de Viktor Orbán, na Hungria. O seu programa não é só de ataque aos direitos e liberdades civis, começando pelos imigrantes e pelas mulheres. O autoritarismo de Ventura serve uma ambição pessoal, mas também um projeto económico violento de privatização dos serviços públicos e desmantelamento do contrato social. Não se combate a extrema-direita banalizando-a, como fez o PSD ao celebrar um acordo de poder com o Chega, rapidamente ratificado por Marcelo. A luta pela democracia contra o medo exige um horizonte de esperança que só a força das lutas emancipadoras pode trazer, como vimos pela mobilização das mulheres contra o ódio de Ventura na última semana.

A luta pela democracia exige a possibilidade de nos juntarmos em torno da ideia de serviços públicos fortes, de justiça na economia e de proteção no trabalho.

Depois das eleições, o país continuará a precisar das convergências para proteger a saúde e o emprego e da força para combater a extrema-direita oportunista. Esse é o compromisso da Marisa, antes e depois das eleições.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 19 de janeiro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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