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Três fantasmas saem do armário

Não é novidade a militarização da política, é tão saboroso fazer coro contra os “apaziguadores”, há sempre um estatuto a ganhar para os que mostram o seu “sentido de Estado” exigindo mais guerra.

Depois de tantos anúncios do início iminente da guerra, a escalada começou em tom bizarro: tivemos um discurso-farsa no Kremlin, um movimento de tropas na região dominada pelos separatistas pró-russos e as primeiras sanções, logo criticadas pelos seus advogados como pífias.

Em todo o caso, passou-se um Rubicão. Neste processo, houve três fantasmas que saíram do armário.

O da hipocrisia não é um deles, está por aí desde sempre. É o caso do discurso sobre os acordos (o de Minsk, sempre violado por todas as partes), ou sobre a democracia (não foi recentemente que os governantes de um aliado, a Arábia Saudita, mandaram esquartejar um jornalista, sem que fossem incomodados por mais do que uns ralhetes envergonhados?) ou até sobre a brutalidade de Moscovo (quando, no início do seu poder, Putin arrasou metodicamente Grozny, na Tchetchénia, teve o apoio da União Europeia e da Casa Branca). Também não é novidade a militarização da política, é tão saboroso fazer coro contra os “apaziguadores”, no caso os que não enfunam as velas com o sucesso de Biden, há sempre um estatuto a ganhar para os que mostram o seu “sentido de Estado”exigindo mais guerra. Mas lembro-lhes que já fizeram isto quando Mário Soares e Maria de Lourdes Pintasilgo se opuseram à invasão do Iraque.

Em contrapartida, os outros três fantasmas são os mais perigosos.

Tudo por um voto?

O primeiro é o calculismo dos dirigentes, que cuidam de si próprios sem qualquer preocupação com a ordem do mundo. Biden tem eleições em novembro, pode perdê- las e espera por isso que os tambores de guerra mobilizem o seu eleitorado e consumam os opositores internos. Isto costuma funcionar nos Estados Unidos. A resposta de Trump confirmou o estratagema, pois o ex-presidente descreveu a iniciativa de Putin como “genial” e “maravilhosa”, sugerindo mesmo que se devia usar o mesmo truque na fronteira com o México. Concluiu ele que “vai ser a maior força de manutenção de paz que já vi. Vão mesmo manter a paz. Pense nisso. Aqui está um tipo que é muito experiente, eu conheço-o bem. Muito, muito bem”. No entanto, o problema de Biden não é só Trump. Pretende apagar o efeito político da derrota no Afeganistão, a segunda vez na história em que o exército norte-americano foi humilhado e fugiu do terreno de operações que escolhera, e, em particular, corrigir a presunção de que a NATO está em “morte cerebral”, como tinha dito Macron.

O Presidente francês procedeu do mesmo modo. Tem eleições em dois meses e convinha-lhe a afirmação da grandeza da França como árbitro europeu. No entanto, a cimeira que anunciou no fim de semana foi desprezada tanto por Moscovo como por Washington. Macron foi ridicularizado.

A derrota da Alemanha

O segundo fantasma é o da hierarquia: a Casa Branca quer dirigir a Europa e não tolera uma relação económica com a Rússia, em particular a dependência da importação de gás. Por isso, desde o início da tensão, Biden anunciou que o seu objetivo era impedir o Nord Stream 2, perante o incómodo de Scholz. Mesmo hoje, depois da cedência do chanceler, é diferente o que Washington diz (o gasoduto terminou) e o que Berlim diz (está suspenso).

Há uma parte da esquerda que confunde a sua memória lendária com este político imperial, social e religiosamente conservador, adorado pela extrema- direita, um tirano sem escrúpulos

Na Alemanha, a questão é vista como uma cedência estratégica, em particular entre os militares. Um episódio de final deste janeiro ilustrou essa perceção, quando o almirante Kay-Achim Schönbach, chefe do Estado-Maior da Marinha, declarou numa conferência em Nova Deli, sobre Putin: “Pelo amor de Deus, respeitem- -no! Custa tão pouco, quase nada. É fácil dar-lhe algum respeito, que é o que ele quer e realmente merece. A Rússia é um país antigo, a Rússia é um país importante. Mesmo nós, a Índia, a Alemanha, precisamos da Rússia, precisamos da Rússia contra a China.” Foi imediatamente demitido, mas houve pelo menos um ex-chefe de Estado-Maior e antigo chefe do Comité Militar da NATO, Harald Kujat, que veio a uma televisão defendê-lo: “Se estivesse ainda em funções, teria defendido o almirante Schönbach e tentado evitar a sua demissão por todas as formas... é do nosso interesse conseguir um resultado sensível, desescalar e chegar a uma redução da tensão com a Rússia, naturalmente considerando também os interesses da segurança da Ucrânia.”

Seja por esta divergência estratégica, seja pela tentativa frustrada de afirmar a liderança europeia e impedir o disparo da inflação pelo preço da energia importada, a Alemanha é uma grande perdedora neste conflito. Se as sanções forem elevadas com a proibição do acesso das empresas russas ao sistema de pagamentos internacionais, o Swift, a recessão será profunda.

Uma janela que ilumina o mundo?

O terceiro fantasma é o do partido-guia. O discurso torrencial de Putin poderia ter posto um fim a essa mitologia, pois não hesitou em reclamar o império russo do fim do primeiro milénio, destroçando pelo caminho a política leninista que argumentava o reconhecimento do direito à autodeterminação das nações. Que isso se aplica à Ucrânia, não restam dúvidas, é um povo com uma história e uma língua própria, e essa realidade não se desvanece em função dos dirigentes que ocupam o poder em Kiev. Apesar disso, há uma parte da esquerda que confunde a sua memória lendária com este político imperial, social e religiosamente conservador, adorado pela extrema-direita, um tirano sem escrúpulos. Este erro tem um preço.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 25 de fevereiro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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