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Traumas do Império

Na sequência da morte de George Lloyd nos Estados Unidos geraram-se movimentos de massa que com alguma violência protestavam contra a sua morte. Nessa altura começaram ataques a estátuas e foi posta em causa a memória de algumas personagens.

Na sequência da morte de George Lloyd nos Estados Unidos geraram-se movimentos de massa que com alguma violência protestavam contra a sua morte. Houve manifestações, pilhagens, incêndios, mais alguns mortos. Trump ameaçou com o exército, mas, a avaliar pelas sondagens, um pouco ao contrário das expectativas, a população dos Estados Unidos, tem apoiado os protestos.

Nessa altura começaram ataques a estátuas e foi posta em causa a memória de algumas personagens. Colombo que sempre foi uma personagem controversa nos Estados Unidos (em cujo território nunca esteve) teve estátuas decapitadas nos Estados Unidos. Em Bristol, George Colston, filantropo que enriqueceu com o comércio de escravos, teve a sua estátua atirada à água. Leopoldo II da Bélgica teve a sua estátua vandalizada sendo depois retirada das ruas de Antuérpia. Nos Estados Unidos o movimento parece ser profundo e têm-se removido estátuas de locais oficiais, chegando-se ao ponto de pretender mudar a bandeira do Alabama, ainda com símbolos da Confederação.

Em Portugal num Shakespeariano “Much Ado About Nothing” o escândalo é a tinta vermelha numa horrível e recente estátua do Padre António Vieira (no que provavelmente foi uma provocação da extrema direita). Discursos inflamados surgiram em defesa de Vieira, que era um humanista, que lutou contra a escravatura, contra a inquisição, mas vinham todos de quem nunca tinha lido a insuportável e hermética prosa do jesuíta. Os insultos e as acusações de ignorante choveram nas redes sociais e nas caixas de comentários a propósito de textos de Pedro Cardim e Ângela Barreto Xavier, historiadores da época, que em artigos sólidos e rigorosos contestavam a visão adocicada de Vieira.

Vandalizar, ou derrubar estátuas, apagar e mudar nomes de ruas coloca-nos perante dilemas. As estátuas e os nomes de rua são discursos sobre a história, ou sobre o presente?

Vandalizar, ou derrubar estátuas, apagar e mudar nomes de ruas coloca-nos perante dilemas. As estátuas e os nomes de rua são discursos sobre a história, ou sobre o presente? Será legítimo, será legitimo destruir património (quando são)? Será legítimo que as vítimas ou os seus descendentes tenham que viver com a glorificação de ditadores e carrascos? Épocas revolucionárias e de grande mudança têm feito isso mesmo. Aconteceu na Revolução Francesa, passou-se em Portugal no post 25 de Abril. A eliminação de símbolos e nomes da ditadura em Portugal, o que não se passou em Espanha, explicará uma transição em que os traumas da ditadura permaneceram menos. É verdade que os nomes de rua em Portugal eram muitos, mas a estatuária do Estado Novo fugiu à representação direta das suas figuras, preferindo celebrar-se de forma indireta pela história ou pela religião. Essas escaparam ilesas, porém o apagar de símbolos foi importante como processo de “desfascização”. Uns anos mais tarde foram as estátuas dos dirigentes da URSS e “países de leste” a cair dos seus pedestais, eram regimes baseados no culto da personalidade, tinham muitas e grandes estátuas. Estas eram uma forma de mostrar a omnipresença do poder, o fim desses regimes tornava indispensável o derrube dos seus símbolos.

Pode-se sempre acusar estes processos de reescrita da História. Porém são igualmente escrita, porque se está a entrar num período novo, e reescrita porque esse novo período obriga a olhar o passado com outros olhos. Reescrita é aliás o que se faz cada vez que um/a historiador/a aborda um problema de uma nova perspetiva ou trazendo-lhe novas fontes. Faz-se também noutras ciências quer sejam sociais e humanas, quer sejam exatas. Mesmo uma leitura despreocupada das várias histórias de Portugal que foram sendo editadas, desde a de Herculano há cerca de 150 anos, até às mais recentes permite encontrar objetos muito diferentes, com preocupações bem diversas e em que os mesmos acontecimentos são vistos de forma muito diferente. Aliás, a partir de meados do século XX, pode-se ver que cada vez se trata mais de estruturas, de sociedades, de economia, de cultura e menos de “acontecimentos”.

O problema não será, talvez, a reescrita, mas qual a reescrita que se faz. Não será controverso que Leopoldo II esteve à frente de um colonialismo brutal e parece escandaloso que seja homenageado no espaço público. Mas Churchill? Afinal foi uma personagem decisiva na derrota do nazismo, como podia ser um racista? Como podemos atentar contra a sua memória? Para nós será menos conhecido, porém Churchill não só teorizou sobre uma hierarquia de raças que ia dos negros na base, aos brancos no topo, passando por árabes e indianos, como teve políticas que por desprezo racial para com os indianos levaram ao agravamento das fomes de 1943/44 e a milhões de mortos. Posso, apesar de tudo, ter admiração por Churchill, especialmente por lhe reconhecer um papel decisivo na 2ª Guerra Mundial. Mas para o jovem de ascendência indiana, ou de outra antiga colónia, no Reino Unido “colonizado” pelas suas antigas colónias, e são muitos, mesmo muitos, dará mais importância à sua política colonial.

E chegamos a Portugal. Voltemos à estátua recente do Padre António Vieira com três meninos índios que apareceu pintada de vermelho e o enorme o escândalo que provocou. A obra do Padre António Vieira é interessantíssima, pode encontrar-se lá a defesa dos índios. Porém, esta é sobretudo instrumental e resulta de interesses diferentes de missionários e colonos no domínio sobre eles. Quanto ser a defensor dos escravos negros, Vieira segue a tradição que os vê como descendentes de Cã, filho de Noé amaldiçoados e obrigados a servir os outros. A escravidão seria a condição natural dos negros e a forma de alcançar o paraíso, seria não um mal, mas um bem.

Não seria seguramente o primeiro alvo de uma contestação antirracista pois é, no mínimo, uma personagem ambígua. Tem sido ultimamente apresentado em Portugal numa versão muito açucarada de uma obra que poucos terão lido, mesmo havendo edições recentes. O coro de protestos e dos seus defensores só mostrou até que ponto as versões da história derivadas do luso-tropicalismo estão presentes na sociedade portuguesa. Lembrar que pouco tempo antes a contestação de conteúdos menos otimistas sobre a expansão portuguesa motivou uma pergunta no parlamento.

Sobre as pichagens numa estátua de fraca qualidade artística e ideologicamente paternalista fica a dúvida, não terá sido obra da mesma extrema direita, que estava a promover uma petição para deitar abaixo a Torre de Belém, para denegrir a luta antirracista e até promover a manifestação do Chega umas semanas depois?

Importa relacionar estes acontecimentos com a vaga racista a que se assiste em Portugal, é, talvez, um despertar profundo de um racismo que estava relativamente escondido. A ideia de que “Portugal não é racista” era relativamente benigna, um racismo paternalista, do “pretinho” que podia estar à porta da Casa Africana. Talvez se tivesse passado esse tempo, mas lá ia trabalhando nas obras e nas limpezas. Alguns (e apresenta-se Eusébio como prova de que não havia racismo) até eram bons para a bola.

Há uns dois anos tudo mudou. Alguém achou que o seu papel não era estar à porta da Casa Africana, ou a ser o “Artista Português” da Pasta Medicinal Couto, nem sequer estar nas obras, nas limpezas e no bairro de lata. Haver não “lusos”, gosto imenso da inexatidão da expressão, a querer ter voz é um problema. “Portugal não é racista” foi o slogan da manifestação da Extrema direita ocupada com os medos das minorias que “têm mais direitos que os outros”, as “pessoas normais”. Não foi por acaso que o foco da extrema direita passou da corrupção para o racismo.

A ideologia do império foi largamente difundida na sociedade, vem até de antes do Estado Novo que a aproveitou e reformulou, hoje alimenta a extrema direita, mas não se limita a ela

É que este racismo não é exclusivo daquela (ainda) pequena minoria. Está espalhado pela sociedade e é o resultado do Salazarismo, mas, também dos traumas do império. Lembremos que o império acabou há pouco mais de quatro décadas e que ainda há muitos que o viveram. Claro que nem todos estes fazem parte da base de apoio da extrema direita, nem esta se recruta exclusivamente entre este sector que até parecia diluído na sociedade. A ideologia do império foi largamente difundida na sociedade, vem até de antes do Estado Novo que a aproveitou e reformulou, hoje alimenta a extrema direita, mas não se limita a ela.

O Império era feito de heroísmo, descoberta, missão civilizadora, missionação sobre povos que eram inferiores. Massacrar, escravizar, não faziam parte do império. Lembrar que entre as acusações a Mamabou Ba e a Joacine Kater Moreira está a ingratidão, ingratidão face ao país que os acolheu e “civilizou”. A ideologia do império foi necessária para o refundar o projeto colonial em 1890, em resposta ao ultimato, e para o manter no Estado Novo. O império português foi o primeiro a consolidar-se e o último a desaparecer. O império é mais importante na construção da identidade portuguesa do que em qualquer outro país. Nenhum país mudou a capital para a maior das suas colónias, nenhum outro país viveu, ainda há poucas décadas, o espalhar da ilusão de ter um território que ia do Minho não ao Algarve, mas sim a Timor, que está quase a um mundo de distância. O império quando existia era reconfortante, o império que deixou de existir também. Evitava e evita a pequena realidade do país.

O império português foi o primeiro a consolidar-se e o último a desaparecer. O império é mais importante na construção da identidade portuguesa do que em qualquer outro país

É difícil de encontrar uma construção ideológica desculpabilizante do império tão bem construída como o Luso-tropicalismo. Um colonialismo benigno que, ao contrário dos espanhóis que massacraram impérios, se baseava na mestiçagem e que talvez não fosse mesmo um verdadeiro colonialismo. Isto tem pouca relação com a realidade, mas é cómodo para acreditar.

Já em 1978, no seu Labirinto da Saudade, Eduardo Lourenço dizia que a descolonização interna não tinha sido feita. O império então recém desaparecido não tinha saído dos portugueses. Quarenta anos depois também não. Este reaparecer do racismo é um sinal disso mesmo, da dificuldade em lidar com os traumas do império e de como quarenta e cinco anos de privação do império e de democracia não limparam os traumas.

Portugal democrático, pouco tempo depois da queda do império mostrou claramente a sua dificuldade em lidar com esses traumas. A vaga comemorativa dos anos 90 faz sob a égide do “encontro de culturas”, uma nova versão do Luso-tropicalismo, em que novamente o império é descoberta, acentua-se o lado ciência, diminui-se o lado guerreiro e missionário. O encontro de cultura pode, aliás, descortinar-se entre dois centros comerciais. Colombo e Vasco da Gama, ou entre o Decreto lei 391/86, que cria a “Comissão dos Descobrimentos” e a mais recente comemoração da Viagem de Circum-navegação.

A negação do passado colonial e do seu aspeto mais negro, a escravatura, tem assumido aspetos interessantes, alguns dos quais importados. Primeiro foi a larga divulgação de trabalhos aliás interessantes sobre a escravatura africana feita por árabes, depois passou-se ao facto de os negreiros dependerem do comércio e das capturas de escravos, feitas por negros, no interior de África. Já na altura se sabia que isso existia em função do comércio de escravos feito por europeus na costa africana, mas ajuda à ilusão de não haver racismo. Mais recentemente apareceu, numa completa invenção, a escravatura de irlandeses no século XVII, acompanhado aliás por uma fotografia de minas belgas do início do século XX. Negando a escravatura de negros, nega-se o racismo, é o raciocínio simples e simplista.

Todo este processo de negação que vai do “Portugal não é racista”, ao “Encontro de Culturas”, à negação da escravatura não é mais do que um sintoma dos traumas do império, a sua força é tão grande que permite que a extrema direita tenha neles o seu principal alimento. A sua presença é tão forte que torna muito difícil o debate sobre o racismo e legitima o racismo estrutural do estado português. A curto prazo parece uma luta inglória, mas dela não se pode prescindir, não é a fingir que não existe que se trava o racismo. A longo prazo é uma luta na educação, na investigação, na cultura e também em políticas quotidianas que afrontem o racismo estrutural.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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