A transumância

porJosé Manuel Pureza

24 de dezembro 2011 - 0:00
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Nos gráficos a que rezam e nas curvas que os enlevam, os liberais conseguem vislumbrar uma racionalidade segundo a qual os indivíduos, como o gado, estão condenados a um deslocamento sazonal para locais que oferecem melhores condições.

Até há pouco tempo, eram os verdadeiros finlandeses que nos acusavam de sermos madraços e preferirmos os subsídios ao trabalho. Durante algum tempo, foi de fora do país que nos veio a mensagem "ponham-se finos, deixem-se de mar e de sol e toca mas é a trabalhar, não pensem que vos vamos alimentar os vícios para sempre". Pelos vistos, esse tempo passou. Agora é o nosso próprio Governo que nos brinda com a advertência de que somos afinal uns acomodados na nossa "zona de conforto" e de que, jovens, professores, profissionais qualificados chegou o tempo de se porem ao caminho e irem à procura do sustento noutras paragens.

A rábula da emigração podia ser isso mesmo, uma rábula. Mas não é. É a expressão de uma visão do país e da vida. Na sua compreensão mecânica e sem alma da realidade, os liberais destinam às massas humanas um irrecusável princípio de transumância. Nos gráficos a que rezam e nas curvas que os enlevam, os liberais conseguem vislumbrar uma racionalidade segundo a qual os indivíduos, como o gado, estão condenados a um deslocamento sazonal para locais que oferecem melhores condições. Aliás, para os liberais os indivíduos são uns sortudos: enquanto os rebanhos se têm que deslocar duas e três vezes todos os anos, as pessoas só se deslocam uma ou duas vezes na vida. A essa pastorícia dos humanos, os liberais chamam "ajustamento espacial da mão-de-obra à disponibilidade do factor trabalho".

É pois uma convicção ideológica arreigada na transumância aquela que leva o primeiro-ministro a advogar a procura de trabalho pelos professores em Timor ou em Angola, reiterando o que um seu secretário de Estado instigou os jovens com qualificação superior a fazer. Fá-lo com o mesmo rigor frio e com o mesmo fundamento último com que o seu homólogo britânico preparou a evacuação dos seus compatriotas do nosso país quando (e não se...) a falência geral dos bancos se verificar. Com a pequena diferença de que um diz aos seus nacionais que regressem e o outro diz aos seus patrícios que vão à vida.

Para quem reduz a vida a peças que se movem em mapas e a retrata em curvas e em gráficos assépticos - uma vida sem pessoas, sem anseios nem angústias, feita apenas de massas humanas sem rostos nem vozes, guiadas por interesses estreitos - Passos Coelho não fez afinal mais do que falar verdade, afastando ilusões sobre as nossas possibilidades. A verdade, dizem-nos, é que este país não é para todos. A verdade, dizem-nos, é que não há dinheiro para pagar o que tem que ser pago a todos. Ao crescente exército de desempregados condenados a cá ficar, o Governo tira dinheiro ao subsídio que garante a sua subsistência. Aos jovens e profissionais qualificados, o Governo aponta a fronteira. Em ambos os casos o Governo estimula a transumância, convicto de que a fome e a necessidade, para os humanos como para o gado, hão-de guiá-los para novos prados verdejantes.

Na gestão do banco público, os nossos liberais mostram aliás como os humanos ganhariam em imitar o dinheiro na sua apetência pela transumância. Os professores resistem a convencer-se de que devem abandonar toda a vida que construíram aqui e construir outra noutras paragens? Vejam então as contas da Sucursal Financeira Exterior da Madeira da Caixa Geral de Depósitos - ei-las que migram subitamente para as Ilhas Caimão em fuga a essa coisa maldita que é pagar os impostos devidos por todos. Este desenraizamento do dinheiro encanta os nossos liberais.

Dinheiro que não paga impostos e pessoas que não exijam direitos que obriguem a essa cobrança, esses são os ideais dos nossos liberais. Pelo meio atravessa-se-lhes um país de que desistiram e nos sugerem que desistamos.

José Manuel Pureza
Sobre o/a autor(a)

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Coordenador do Bloco de Esquerda
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