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Transportes da Carris Metropolitana: revolução ou pesadelo?

A anunciada revolução dos transportes públicos na Área Metropolitana de Lisboa iniciada a 1 de junho revelou-se um autêntico fiasco. Decorrido mais de um mês do início da primeira fase do plano, nos concelhos de Palmela, Alcochete, Moita, Montijo, Setúbal e Barreiro, os transportes estão num caos.

A segunda fase iniciada em 1 de julho nos concelhos de Almada, Seixal e Sesimbra parece que vai pelo mesmo caminho.

Nas paragens dos autocarros, nos terminais rodoviários, nas filas para os gabinetes de apoio ao passageiro, as pessoas partilham a sua frustração e a sua raiva. Uma senhora teve que vir a pé do outro lado da cidade, porque o autocarro urbano que costumava utilizar para fazer a ligação com outro foi suprimido. Chegada à paragem desabafa a sua revolta, que alastra às pessoas presentes, que se sentem solidárias e contam o calvário por que vêm passando. Passam quinze minutos, meia hora… e começa a tornar-se evidente que o autocarro que a levaria para o trabalho situado a uns 15 Km, no concelho vizinho, foi igualmente suprimido. O seguinte, uma hora depois(!) lá chega finalmente. O número de telefone de apoio ao cliente não atende, ao fim de dez, quinze minutos resta desistir. Se são suprimidos diariamente inúmeros autocarros, de todo o tipo de percursos e distâncias, instala-se a dúvida, a incerteza.

Não há memória de supressão generalizada de horários como atualmente. Antes de 1 de junho os autocarros estavam numa lástima, bancos desconjuntados, assentos soltos, em alguns chovia lá dentro, o ar condicionado não funcionava, a poluição era evidente, as avarias frequentes, os autocarros deviam ter sido substituídos há décadas, na realidade eram comprados em segunda mão nos países mais ricos. Agora, os autocarros são novos ou quase. Mas todo o resto está pior. O prometido estímulo à troca do carro privado pelo transporte público não passa até ao momento de uma falsa promessa: andam a brincar com coisas sérias.

E a questão é esta: os autocarros são suprimidos, os horários não se realizam, as pessoas ficam meia hora, uma hora, uma hora e meia à espera do próximo que ninguém garante que se realizará: PORQUÊ?

Apesar de as empresas concessionárias tentarem iludir a sua responsabilidade, o facto é que falta um número enorme de motoristas. E a promessa de que tal não iria acontecer feita mesmo antes do dia 1 de junho era mentira. Faltam motoristas por várias razões, mas a principal é a maneira como são tratados pelos donos das empresas privadas concessionárias. O salário oferecido é praticamente o salário mínimo nacional, incompatível com a responsabilidade, o stress do trânsito e os protestos crescentes das pessoas utentes, furiosas e insatisfeitas que não têm ninguém que as defenda e se viram injustamente contra quem aparece com o autocarro nas mãos. Algumas regalias foram suprimidas, como o passe gratuito de familiares diretos. Como não há pessoal suficiente, o horário para almoço (que deve ser pelo menos uma hora) tende a ser cada vez mais reduzido até ao absurdo; os motoristas são pressionados pelas empresas a fazerem horas seguidas e excessivas, mesmo contra a lei e segurança própria e dos passageiros.

Logo no princípio de implementação da falsa partida para a revolução dos transportes na Área Metropolitana de Lisboa os motoristas fizeram uma paralisação de protesto. Na altura foi um alerta. As empresas e as Câmaras Municipais pediram paciência, uma semana, uma quinzena para ficar tudo resolvido. Depois pediram paciência até ao fim de junho. Tudo conversa fiada!

No dia 6 de julho, na linha que liga Sesimbra a Setúbal, mais autocarros foram suprimidos por falta de motoristas. Mas não é apenas a falta de mão de obra, falha flagrante da empresa, neste caso a multinacional ALSA. A incompetência e o desprezo pelos utentes começa no início do trajeto. Em Setúbal está finalmente afixado o horário novo, com números enigmáticos das carreiras de 4 dígitos, sem qualquer relação com os números antigos nem forma de o saber. Em Azeitão, na paragem, a meio caminho, está afixado o horário antigo. Em Sesimbra onde termina a carreira não há qualquer referência nem horário, nem antigo nem novo. No gabinete de apoio ao passageiro as esforçadas trabalhadoras não conseguem saber se os autocarros vão ou não fazer os horários previstos…que na melhor das hipóteses serão os antigos. Se não, há que esperar mais uma hora e meia. Até quando?

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Professor
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