1 - A invasão russa da Ucrânia colheu de surpresa Zelensky, que não acreditava nessa possibilidade, como quase todo o mundo. Um ano depois podemos verificar que o plano da invasão foi um fiasco. O objetivo de Putin era controlar Kiev e lá deixar um governo fantoche e foi obrigado a recuar as suas tropas para o leste da Ucrânia. Este é o resultado militar de uma guerra que se prolonga num impasse ao longo de uma linha de Donbass a Kherson, que os russos tentam salvaguardar para disporem de uma faixa terrestre de ligação à Crimeia. Isto é a geografia dos telejornais. O resultado social desta guerra conta-se em várias centenas de milhares de mortos de ambos os lados e em seis milhões de deslocados internos e oito milhões de refugiados externos. O território tem sido alvo de uma destruição avassaladora. Isto são as notas humanas dos telejornais. Desta vez, os media estão do lado dos agredidos e podemos ter a informação que não tivemos, por exemplo, na invasão do Iraque pelos Estados Unidos, Inglaterra e outros. Desta vez a dor das vítimas é a nossa companhia.
2 - A estratégia colonial de Putin foi lida ao mundo por ele próprio: a Ucrânia seria uma província russa e teria de ser anexada. Culpou Lénine pela criação da Ucrânia. O imperialismo russo não estava adormecido porque já tínhamos visto a guerra na Chechénia, ou as sortidas na Geórgia. Como os americanos então preferiram olhar para o lado, e os media na sua cola, poucos se importaram com isso. Mesmo setores à esquerda que deviam ter outro sentido crítico preferiram fechar os olhos. A guerra da Rússia à Ucrânia só pode ser qualificada de uma guerra imperialista e ninguém pode hesitar na condenação do invasor e da sua agressão imperialista. Trata-se de um imperativo para quem se coloca do lado dos povos, da paz e dos direitos das nações estabelecidos na Carta da ONU.
3 - Está em causa a soberania da Ucrânia e o respeito pelo seu território. A defesa militar ucraniana é legítima para expulsar o exército invasor. A Paz não é o jugo de uma rendição. As armas que têm sido fornecidas à Ucrânia pela potências imperialistas ocidentais, desde que armas defensivas, inserem-se neste objetivo de resistência nacional. A proteção da NATO ao governo de Kiev não tira um átomo ao caráter de libertação nacional desta resistência.
4 - As potências ocidentais, mais antigas e mais fortes nos negócios imperialistas, inventaram que estava em causa a democracia na Europa contra o autoritarismo russo. Que dizer? A Ucrânia não cumpre sequer os próprios critérios europeus como um estado democrático. O governo ucraniano não se defende na base da democracia mas do nacionalismo, exceto ultimamente quando Zelensky percebeu o filão desse discurso para se apresentar nas chancelarias ocidentais. Não precisaríamos que a Ucrânia fosse uma democracia para apoiá-la. Toda a esquerda apoiou, por exemplo, o Iraque do governo reacionário de Saddam Hussein contra a invasão americana, e fez bem como a história provou. Essa hipocrisia visa alinhar as opiniões públicas dos seus respetivos países para suportar as consequências da guerra em solo europeu. Essa demagogia vai perdurar enquanto a União Europeia mantiver o boicote à energia russa e vigorarem sanções contra a economia russa que têm efeito boomerang a ocidente e prejudicam gravemente as condições materiais dos europeus.
5 - As justificadas sanções sobre as fortunas pessoais dos oligarcas russos foram ampliadas para o boicote comercial de larga escala, para vantagem dos Estados Unidos e mais alguns estados que têm estado a substituir as importações russas. A campanha dita democrática também visa lavar a cara do imperialismo americano e afins das múltiplas guerras que desencadearam. Biden quer apresentar-se como o campeão da democracia para justificar o domínio americano do planeta e Putin deu-lhe o pretexto como um grotesco aprendiz de feiticeiro.
6 - Apesar dos apelos de Zelensky e do governo reacionário da Polónia, a NATO recusou entrar diretamente no conflito, alegando que a Ucrânia não era membro da NATO. Preferiu o apoio logístico de retaguarda. Isso foi visto como um sinal de contenção de uma escalada bélica com recurso a armas nucleares. Contudo, quer do lado russo, quer do lado da NATO, há sinais preocupantes de provocação de um conflito global. As atoardas de Medvedev, ex-presidente e do Conselho de Segurança da Rússia, rivalizam com ameaças do secretário da defesa dos EUA, Lloyd Austin. Medvedev ameaçou a Polónia e fez declarações ambíguas sobre armas nucleares e Austin garantiu que o objetivo americano era enfraquecer Moscovo, objetivamente mudar o regime. Este perigo deve merecer um alerta universal. Não à escalada da guerra torna-se um poderoso argumento para discutir internacionalmente um cessar-fogo.
7 - Os riscos de globalização da guerra não autorizam, contudo, que se considere que a guerra da Ucrânia é uma guerra por procuração. As guerras coloniais em que Portugal tentou esmagar os nacionalismos africanos não foram uma mera guerra por interpostas forças contra a União Soviética ou a China, que estavam por detrás dos movimentos de libertação. A autodeterminação dos territórios é o seu objeto legítimo. Os defensores da tese da guerra por procuração desvalorizam objetivamente a existência da Ucrânia como um estado independente. Curiosa contradição daqueles que reclamam para Portugal um governo patriótico e o recusam a outros.
8 - A defesa da Ucrânia e da sua integridade territorial tem de ter em conta vários factos. Não faz sentido a Ucrânia reclamar a Crimeia de volta. Não há razões históricas, ou outras, para tal. Zelensky, há um ano, dava de barato a questão da Crimeia e referia-se às fronteiras invadidas. Por outro lado, as zonas do Donbass que se consideram russas devem ter direito a referendos internacionalmente reconhecidos e organizados pelas Nações Unidas, como houve em Timor. Sem a presença do exército invasor. A própria Rússia tem de ter garantias de que a Ucrânia se mantém fora da NATO.
9 - A União Europeia abdicou de ter um papel mediador neste conflito. Corretamente, a UE condenou a invasão russa mas foi completamente a reboque dos EUA na escavação de trincheiras. Neste momento, toda a política externa da UE e dos seus estados-membros foi subsumida na NATO. A diplomacia europeia resume-se à NATO. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von Der Leyen, decide por cima do Conselho Europeu, mesmo quando não tem mandato para tanto, toda a dinâmica política da União Europeia. A presidente é mais uma secretária da administração Biden. O governo do PS, exprimindo a posição de Portugal, deveria instar a uma proposta internacional de negociações entre os beligerantes. Não basta dizer que a Rússia não quer. É preciso sinalizar uma proposta europeia que não passe pelos comunicados da NATO.
10 - Nas pessoas que lutam e pensam à esquerda, onde me insiro, há uma grande incomodidade com a particularidade neste conflito de o agredido ter o apoio do imperialismo americano. Para outros, soma-se o facto de ser a Rússia o agressor de quem, apesar do longo consulado de Putin, esperavam algum contraponto positivo à hegemonia americana. Nada disto é inédito. O imperialismo americano estava do lado certo quando foi aliado da União Soviética para derrotar o nazi-fascismo das potências do Eixo. Isso não impediu a continuidade do combate anti imperialista. Como se sentiu muita gente de esquerda com a invasão da União Soviética do Afeganistão? Como se sentiram todos os que proclamavam, e bem, a soberania de Cuba? Isso não impediu o combate pelo direito das nações a disporem de si próprias. O tal direito que Putin critica a Lénine.
11 - A tragédia Putin arrasta a repressão na Rússia e a guerra colonial na Ucrânia. A tragédia Putin dá o pretexto para a militarização imparável do espaço europeu, para reerguer uma desacreditada aliança militar como a NATO e para isolar os partidários da paz e do fim da corrida aos armamentos. A tragédia Putin afastou de qualquer horizonte próximo uma alternativa de segurança coletiva europeia, na linha dos entendimentos que propiciaram a OSCE. A tragédia Putin levou os povos europeus a acreditar na proteção da maior potência imperialista da história da humanidade. Isso é o que ficará para o tribunal da história, muito para além da terrível tragédia criminal. Tal como Amílcar Cabral distinguia o regime colonial-fascista português do povo portuguès que não tinha culpa dos crimes de Salazar e Caetano, também estendemos a nossa solidariedade aos povos da Rússia e enaltecemos a coragem dos seus resistentes. Eles também são vítimas da tragédia Putin.