As profundas alterações que se têm verificado no mundo do trabalho implicam que as relações laborais sejam avaliadas, repensadas e reapropriadas, com urgência, pelas organizações dos trabalhadores.
A centralidade do trabalho na sociedade, que tem sido posta em causa pelo neoliberalismo, tem de ser reposta e respeitada. Por muita retórica balofa de chamar aos trabalhadores, colaboradores, o certo é que a diferença salarial entre gestores e trabalhadores é tão grande, que mostra a falsidade de tal afirmação.
Na Europa, na segunda metade do século XIX e em Portugal no início do século XX, a concentração de centenas de trabalhadores em grandes fábricas, escritórios e noutros serviços gerou movimentos de solidariedade entre os trabalhadores, o que elevou a sua consciência de classe e tornou possível a evolução das suas organizações em sindicatos e em federações sindicais, o que fez aumentar a força contratual dos trabalhadores face ao patronato e às suas organizações.
Hoje, a dispersão dos trabalhadores, provocada pela divisão das empresas e pelas novas formas de organização do trabalho, com recurso a empresas de trabalho temporário, e ainda, pelo precariado e pelos falsos recibos verdes e ultimamente pelo teletrabalho e pela chamada uberização do trabalho, nas plataformas digitais, tem contribuído para novas formas de exploração dos trabalhadores, habilidosamente encaixadas na designação de empreendedorismo, “crie o seu próprio emprego”. Tal falácia pode levar os próprios trabalhadores a acreditar que passaram a ser empresários, ou como já alguém disse, “emprecários”, ou independentes, levando-os a ser cada um por si, dificultando e impedindo-o estabelecimento de laços de solidariedade.
Estes truques neoliberais que pretendem mascarar os trabalhadores de colaboradores conseguem enganar alguns menos precavidos, que assim embarcam nas falácias de que não são necessários sindicatos nem outras associações, porque os colaboradores são patrões de si próprios. Nada mais perverso.
Caberá aos trabalhadores nessas condições de dispersão e de isolamento social engendrar novas formas de organização que lhes garantam alguma capacidade negocial face às entidades empregadoras e à sua insaciável cupidez.
A já longa história do Movimento Operário mostra que os trabalhadores se organizaram em mútuas, fraternidades e outras formas defensivas de organização, mas só quando evoluíram para organizações de classe, os sindicatos e para organizações intersindicais, conseguiram uma maior e mais qualificada intervenção na luta que opõe o trabalho ao capital. Foi assim, com muitas lutas, que foi possível impor ao patronato todos os direitos que hoje usufruímos.
O afastamento dos trabalhadores, nomeadamente dos mais jovens, da actividade sindical, por desinteresse ou por dificuldade de enquadramento nas organizações sindicais existentes, tem provocado alguma cristalização dos sindicatos, com o enquistamento das direcções sindicais e até à criação de uma certa aristocracia sindical, tendente a criar algum carreirismo que não se mostra permeável a novas experiencias organizativas.
O acolhimento de trabalhadores sujeitos às novas formas de exploração pode passar pela alteração também de novas formas de sindicalização. Não é possível esquecer que até há pouco tempo os trabalhadores precários e a falsos recibos verdes muito dificilmente eram reconhecidos como com iguais direitos sindicais.
Continua, no entanto, a ser em torno dos Sindicatos e das Comissões de Trabalhadores que tem sido possível manter alguma organização dos trabalhadores, para fazer frente às cada vez mais sofisticadas investidas do capital neoliberal.
A luta por salários justos que permitam qualidade de vida aos trabalhadores não pode ser substituída por apoios ocasionais prestados pelo Estado, que embora uteis, não constituem o pagamento integral do trabalho, nem é justo socialmente e criam uma certa modorra social, que embota o poder reivindicativo, de acordo com os interesses do capital neoliberal.
Impõe-se uma maior actualização das organizações sindicais, que passa pela formação de novos dirigentes, aproveitando os ensinamentos do que tem sido feito internacionalmente, sem nunca perder de vista a finalidade do sindicalismo reivindicativo que deverá continuar a ser a defesa intransigente dos direitos do trabalho, sem pactuar com os cantos de sereia que a propaganda neoliberal vai ensaiando cada vez mais de forma insidiosa.
Por outro lado, a agenda sindical não deve estar dependente de agendas político-partidárias ou outras, evitando a promiscuidade que lhe retira a credibilidade e são impeditivas de uma maior adesão ao movimento sindical.