Todos os riscos do mundo

porFrancisco Louçã

01 de janeiro 2024 - 22:43
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A bufonaria tem um programa social: recusa da transição energética, choque de gerações, discriminação de mulheres ou de imigrantes e a bagatela da violência, são essas as suas normas.

Sandra Petrovello, ministra argentina do Capital Humano, o que quer que isso queira dizer, declarou solenemente que qualquer beneficiário de programas sociais que participasse numa manifestação nesta semana, em protesto contra os anúncios do novo Presidente Milei, seria excluído desses apoios. Ponho-me a pensar sobre o que andará pela cabeça dos “anarcoliberais” que ganharam a Casa Rosada com o grito de “viva a liberdade” (e lembra-me, defeito meu, aquela deliciosa frase do então presidente do CDS em debate com o impante presidente do Chega, “se um regimento de cavalaria desfilar dentro da sua cabeça não se cruzará com uma ideia”, e Milei faz recordá-lo). Irá a ministra do Capital Humano obrigar as pessoas que se manifestam a passarem por um controlo policial na entrada da manifestação, registando a sua identidade? Passará a haver cidadãos com luz verde para se manifestarem e outros disso impedidos, pela superior determinação da ministra? Aplicar-se-á a simpática motosserra exibida em campanha àquele direito elementar a expressar opinião? Pensarão os seus colegas Bolsonaro e Zelensky, que se perfilaram na tomada de posse, que a receita é universal? A resposta é afirmativa. E aqui está um dos balanços de 2023, sobre o qual, agora que me vou despedindo desta coluna, deixo uma apreciação.

Tudo trocado?

Uma das facetas mais iluminadoras da desordem mundial dos últimos anos é que tudo parece trocado e, no entanto, está exatamente no lugar: os liberais, que se definem unicamente pelo projeto da redução de impostos para os mais ricos, são protecionistas (Trump) e autoritários (Bolsonaro, Milei); transformam a sociedade no pandemónio do salve-se quem puder, como na habitação; defendem a liberalização do trabalho e opõem-se à imigração no país que foi feito por imigrantes, os Estados Unidos, ou noutros. São nacionalistas xenófobos e internacionalistas da finança. Assim, o liberalismo, a ideia dominante das últimas décadas, colonizou os bancos centrais, assumiu o controlo doutrinário dos Governos e, no cume da sua vitória, tornou-se a lantejoula da extrema-direita, ao mesmo tempo que absorve a direita tradicional no vórtice e o centro procura credibilizar-se com cortes sociais, chamando-lhes perversamente “contas certas”.

Nas eleições europeias contaremos os votos que podem levar esta vaga de xenofobia e racismo social a vitórias em Itália, França, Países Baixos, Áustria, Alemanha

Liberais repressivos, partidários do mercado livre que são protecionistas, democratas exterministas, economia medida pelo investimento em armamento, vai assim o regime. Quer o nosso destino pátrio que nos sobrem os mais rasteiros dos seguidores deste cânone, que festejam à portuguesa que uma concessionária de aeroportos recupere numa década o seu investimento e depois fique 40 anos a viver da renda.

Tambores de guerra

A invasão da Ucrânia, feita em nome do restabelecimento das fronteiras do império czarista, é bom não esquecer, aniquilou os planos energéticos da Alemanha e impulsionou a extensão da NATO para o centro do continente. Os movimentos gémeos de Putin e de Biden anunciam tristemente a submissão da Europa, o seu condicionamento estratégico, e, mais uma vez, instalam no seu território os tambores de guerra. A outra guerra, a de Gaza, permitiu a Netanyahu, à frente de um Governo que seria visto em qualquer país europeu como um ataque de zombies, promover um massacre que só tem paralelo com outras chacinas rácicas. Assim, somos entregues a guerreiros do apocalipse, a missões de agressão religiosa e a facínoras que fazem da morte um troféu.

Devo acrescentar, no penoso apanhado do que foi o ano que termina, que esta banalização do mal é o caldo da extrema-direita, que não é o resultado de qualquer particularidade cultural ou entretenimento folclórico. Num artigo aqui publicado, usei a definição de Foucault sobre os bufões, as personalidades que se evidenciam pela óbvia incapacidade para exercerem cargos de poder a não ser pelo arbítrio puro, à “Ubu Rei”; continuo a pensar que é a descrição mais adequada dos personagens que ocupam a cena pública em diversos países, sendo Trump o exemplo mais esclarecedor. A ministra Petrovello e Milei, ou Netanyahu ou Meloni, não são maçãs extravagantes no cesto político, são o trivial desta vaga e é o que explica o seu sucesso. A finança, que rege o mundo, quer medo e os bufões são os seus arautos.

Nas eleições europeias vamos sentir o preço deste pavor que os alimenta e das sucessivas cedências que têm sacrificado a vida social para aplacar a sanha imensa dos bufões. Contaremos os votos que podem levar esta vaga de xenofobia e racismo social a vitórias em Itália, França, Países Baixos, Áustria, Alemanha — e nem assim o centro fará outra coisa que não seja asfixiar a economia e desprezar os seus países para buscar uma adaptação a este movimento. A bufonaria, no entanto, sabe como deve escolher os alvos e, como é incompetente para uma governação hegemónica, só pode proceder pela cavalgada dos ódios: tem que distrair e aterrorizar, não precisa de convencer. Não recua. Por isso, se alguém pensa que se pode enfrentar o perigo com um regime cerimonioso, assente num centro que vende os princípios que são o pilar da democracia, cedo saberá do engano. A bufonaria tem um programa social: recusa da transição energética, choque de gerações, discriminação de mulheres ou de imigrantes e a bagatela da violência, são essas as suas normas. É aí que deve ser vencida.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 22 de dezembro de 2023

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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