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Todas as razões para apreciar José Manuel Fernandes

Confesso mais esta fraqueza: adoro os editoriais de José Manuel Fernandes. Bem sei que os meus amigos não se cansam de me dizer que se trata de um político reaccionário, porque é um dos defensores do genocídio no Iraque (cuja “libertação” à bomba lhe mereceu uma sempre comovente “lágrima furtiva”). Bem sei que é um dos homens de confiança de Cavaco Silva e um dos promotores da unidade da direita para a sua vitória presidencial (o que prova como é bem sucedido). Mas o certo é que nada disso me impede de adorar os seus editoriais.

Até chego a estar de acordo com ele em ocasiões raras. E defendi-o mesmo quando o governo angolano proibiu o Público de acompanhar a viagem de José Sócrates – a liberdade de imprensa e de opinião é sobretudo importante para defendermos o direito de expressão dos nossos adversários.

E é por isso mesmo que adoro os seus editoriais. É que tanta raiva, tanta perseguição, tanto azedume contra o Bloco de Esquerda só prova o nosso sucesso. Se Fernandes não nos atacasse com raiva, poderíamos concluir que não incomodamos os poderes económicos. Cada vez que nos insulta num editorial, é uma medalha para o Bloco. Fernandes mostra-nos porque devemos continuar e como devemos continuar.

Devo no entanto reconhecer, com pesar, que nem sempre os editoriais revelam o melhor do grande jornalista que é Fernandes. No dia 1 de Maio, por exemplo, o tema foram as touradas e a coisa não correu bem.

Helena Matos, outra cronista neoconservadora cujo amor pela verdade é lendário, escrevera na véspera que o Bloco tinha imposto a proibição das touradas em Sintra. Fernandes entusiasmou-se e veio intimar-me a, numa atitude “de homem”, as proibir também em Salvaterra de Magos (engraçado, isto “de homem”). Fernandes, jornalista embaciado pelo seu ódio político, esqueceu-se de ler o seu próprio jornal, que noticiara a votação da Assembleia Municipal de Sintra e dera conta da aprovação de uma proposta do Bloco, segundo a qual a Câmara não deve patrocinar touradas. As touradas far-se-ão, mas por sua conta: a Câmara não deve pagar. Não proibiu nada (nem tinha direito a proibir, mas não se pode pedir a Fernandes que, já sendo tão competente noutras facetas da sua vida, saiba alguma coisa de direito).

E, se tivesse feito o trabalho que se esperaria de um jornalista, concluiria mais: a Câmara de Salvaterra também não patrocina nem paga as touradas que se realizam por iniciativa privada no seu concelho. Lamento que esta informação não estivesse acessível no twitter, mas estava na internet: o cartaz da dita tourada não mostra o patrocínio da Câmara, o que já daria para tirar conclusões. O que seria fácil de confirmar, mas como se pode pedir rigor a um homem tão ocupado?

De resto, que importa a Fernandes a notícia factual do seu jornal, ou o rigor da informação? Helena Matos garantiu que havia censura às pobres das touradas, e aí vai ele gritando contra a censura às touradas. Se era uma forma de insultar o Bloco, melhor ainda. É de homem.

Agradeço-lhe profundamente. A vida do Bloco de Esquerda seria uma pasmaceira sem os editoriais fulminantes de Fernandes. Ainda bem que nos lembra os temas importantes. E como o CDS, o PS e o PSD estão a propor nos Açores a retomada das touradas com lanças, violando a lei nacional, é importante que haja quem, como o Bloco, se lhes oponha. Como o Bloco foi o único partido a votar contra as touradas de morte. O único. Infelizmente, para Fernandes, os factos são teimosos. O jornalismo também aprecia a verdade dos factos. Mas já quanto a Fernandes…

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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