Os Cinco, de Enid Blyton, começaram a ser publicados em 1942, no Reino Unido. Entre as personagens principais estava Georgina, ou George, como exigia ser tratada. Alguém que rejeitava os papéis de género impostos, que se afirmava como “rapaz” sempre que podia, que recusava vestidos, delicadezas e obediência. Hoje, qualquer manual básico de estudos de género reconheceria naquela personagem uma expressão clara de não conformidade de género. No entanto, na altura, ninguém se manifestou à porta das editoras. Não houve comunicados inflamados sobre a “ideologia de género”. Nenhum partido ou Igreja exigiu a censura dos livros. Nenhuma criança “se tornou” outra coisa por tê-los lido. Gerações inteiras de crianças leram estas aventura empolgantes sem qualquer trauma coletivo, colapso moral ou histeria civilizacional. A religião e o conservadorismo toleravam a “excentricidade”. A sociedade seguiu em frente porque, simplesmente, a diversidade sempre existiu.
Ao mesmo tempo que estes livros eram editados, no mundo real, Alan Turing desempenhava um papel absolutamente decisivo na derrota da extrema-direita. O seu trabalho em Bletchley Park, a decifrar o código Enigma, encurtou a guerra em anos e salvou milhões de vidas. Não há qualquer exagero em afirmar que a vitória dos Aliados lhe deve uma contribuição fundamental. No entanto, em 1952, já em tempo de paz, Turing foi condenado pelo Estado britânico por ser homossexual. Foi submetido à chamada “castração química”, perdeu o direito a exercer a sua profissão em segurança e foi empurrado para a humilhação, para o isolamento e, finalmente, para o suicídio dois anos depois. Este contraste é brutal e muito revelador. Durante a guerra, o mundo precisava de Turing. A sua diferença era tolerável, desde que fosse útil, silenciosa e invisível. Terminada a urgência, a mesma sociedade que beneficiou do seu génio voltou-se contra ele com uma crueldade burocrática e moralista. O Estado limitou-se a executar aquilo que a moral religiosa tinha definido como abjeto. A ciência salvou vidas, a moral religiosa exigiu a punição severa e exemplar. A mensagem era clara: podes salvar o mundo, mas não tens direito a existir como és. A não ser que sejas uma personagem fictícia.
A religião cristã, e isto é um facto histórico, não se trata de forma nenhuma de uma provocação, foi durante séculos uma das principais engenharias do medo em torno do corpo, do desejo e da identidade. Foi sempre uma máquina muito eficaz de produção de culpa, vergonha e silêncio. Nunca precisou de demonstrar nada, bastava declarar seja o que fosse como imoral. E quando a religião perdeu o poder direto, deixou herdeiros fiéis na política, no direito e no discurso público. É exatamente essa herança que hoje reaparece nas polémicas sobre programas infantis, identidade de género e crianças trans.
Avancemos para 2025 e deparamo-nos com a polémica em torno do programa infantil Sex Symbols, da RTP2, por mostrar, de forma tranquila e pedagógica, a existência de uma rapariga trans. Desta vez, porém, a reação foi a indignação moralista, a desinformação organizada e um ataque político concertado, com os partidos de direita e extrema-direita no poder à cabeça, amplificado por comentadores que descobriram subitamente uma vocação para “defensores da infância”.
Importa dizê-lo com toda a clareza: estas controvérsias não têm nada a ver com a proteção das crianças. Apenas se preocupam em explorar o medo, em fabricar inimigos e em transformar crianças reais em armas de arremesso político. Não têm qualquer problema em usar a palavra “ideologia” para tentar apagar vidas concretas. Usam a bandeira da “preocupação parental” enquanto ignoram deliberadamente que as primeiras vítimas do silêncio, do estigma e da repressão são precisamente as crianças que dizem querer proteger. Não é coincidência que estas campanhas encontrem eco sobretudo em setores politicamente conservadores e religiosamente mobilizados. O que está em causa não é a infância, mas sim o controlo moral. A recusa em aceitar que a diversidade humana não precisa de autorização divina para existir. A religião sempre teve uma relação problemática com a infância. Idealiza-a como pura, obediente, binária, e entra em pânico quando percebe que as crianças são pessoas completas, independentes, com identidades próprias, corpos reais e experiências que não cabem no catecismo.
As crianças trans e de género diverso existem independentemente de qualquer programa de televisão. A identidade de género não se aprende, não se ensina, não se transmite por contágio, nem mediático nem outro qualquer. Não nasce de um desenho animado, nem de uma conversa em sala de aula. Nasce com a pessoa. Sempre nasceu. Mas tornámo-nos todos estúpidos ou quê? Nenhum programa de desenhos animados “cria” crianças trans. Agora, uma sociedade hostil, ignorante e cruel pode, sim, destruí-las. Pode destruir a sua autoestima, o seu bem-estar emocional, a sua confiança nos outros e até a sua vontade de viver. É por isso que a visibilidade importa. Porque salva vidas.
A infância não pode ser um campo de batalha ideológica. Não pode ser o terreno onde políticos em busca de notoriedade descarregam frustrações, medos e preconceitos. O que ameaça as nossas crianças não é a diversidade. É o ódio. Um ódio disfarçado de moralismo, uma campanha de desinformação vestida de preocupação, uma tentativa consciente de regressar a um tempo em que tudo o que fugia à norma era empurrado para a sombra. Mas as sombras nunca protegeram ninguém. Como nos mostrou Turing, foram sempre lugares de sofrimento e vergonha impostos por quem não admite que o mundo seja maior do que o seu pequeno horizonte mental.
A televisão pública tem deveres fundamentais: educar para a cidadania, promover a empatia, ampliar horizontes. Mostrar que há diferentes formas de se ser criança, de se ser pessoa, de existir no mundo. Isto é serviço público. Aceitar a diversidade não chega. É preciso defendê-la. Rejeitar o discurso de ódio não basta. É preciso combatê-lo. Porque cada vez que cedemos ao medo e à mentira, uma criança perde o espaço para respirar. E cada vez que afirmamos, sem hesitação, que todas as infâncias são legítimas, uma criança ganha luz, dignidade e futuro.
A boa notícia é que a história também mostra que a humanidade avança apesar da moral religiosa e conservadora. Avança quando a ciência, a educação, a empatia e os direitos humanos se impõem ao dogma e ao conformismo. A sociedade que queremos não é a que se assusta com desenhos animados, não é a que censura a diferença. É a que se indigna com a discriminação e, simplesmente, acolhe. A pergunta que urge é simples: vamos permitir que políticos e comentadores construam carreiras à custa da vulnerabilidade das nossas crianças? Ou vamos afirmar, sem rodeios, que todas as crianças, TODAS AS CRIANÇAS, têm o direito de existir como são e que ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de apagar a sua verdade? O tempo da neutralidade acabou. Combater o ódio é um dever cívico. Defender as crianças trans, todas as crianças, é uma obrigação humana. Porque todas as crianças merecem crescer livres, respeitadas e amadas como são.
Há quem chame a isto de ideologia mas não; é apenas humanidade.