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Terceiro período, um teste para todos

O primeiro-ministro já o admitiu: considerando a evolução da pandemia em Portugal, é provável que as escolas não abram portas no terceiro período. O que fazer então para que este ano letivo acabe da melhor forma possível?

Em primeiro lugar, não nos poderemos esquecer de como foram estas duas últimas semanas para os alunos, para os pais e para os encarregados de educação: uma canseira, um desgaste sem limites. De repente, muitos professores (nem todos) começaram a enviar catadupas de emails com trabalhos de casa: fichas, relatórios, exercícios, composições, tudo para devolver na volta do correio. De repente, desembarcaram nas nossas casas o Moodle, o Classroom, o Whatsapp, o Zoom, entre outras plataformas para trabalho à distância. A juntar a isto, correção de testes, notas para lançar, “reuniões de teste” online, tudo para realizar os conselhos de turma do final do 2.ºperíodo.

No meio deste afã, quase ninguém se lembrou dos alunos lá em casa: estariam ou não acompanhados pelos seus encarregados de educação? Que disponibilidade teriam estes para o que lhes é exigido? Muitos encontram-se em teletrabalho, a desesperar duplamente, fechados todo o dia, a trabalhar e a tentar, em simultâneo, ajudar os seus educandos em exercícios das mais variadas matérias.

Para não falar dos alunos sem acesso à internet. Desses ninguém se lembrou e lá se foi a inclusão!

Existem milhares de famílias carenciadas. Nos Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) são poucos os alunos que em casa reúnem as condições necessárias para continuarem incluídos no sistema educativo nestes moldes. Porque não possuem acesso à internet e também, muitas vezes, por falta de estruturas familiares estáveis ou com escolaridade que lhes permita apoiar os seus educandos.

E eis que chega às escolas um plano para o 3.º período, ou antes, um “Roteiro com 8 Princípios Orientadores para a Implementação do Ensino à Distância ([email protected]) nas Escolas” enviado pelo Ministério da Educação. A meu ver, é mais um documento elaborado em cima do joelho, mais preocupado com o preenchimento da mancha horária dos alunos e sem pistas sobre como levar até ao fim um ano letivo sem mais sobressaltos. Já basta o que basta!

Por último, não esquecer muitos professores (sobretudo com mais idade) para quem estas plataformas digitais não são instrumentos de trabalho, mas sim causa de (mais) stress e ansiedade. O Ministério da Educação esquece os números da OCDE: a classe docente é das classes profissionais mais envelhecidas em Portugal e na Europa.

O Ministério também esquece que muitos professores não podem vir a estar em teletrabalho no terceiro período. Muitos deles são também encarregados de educação e terão de estar em casa mas a dar apoio aos seus filhos menores.

Sendo este um ano atípico, o que deveria ser realmente colocado em prática, sem deixar ninguém de fora e/ou para trás?

Em primeiro lugar, deve haver recurso à telescola, através da televisão digital terrestre (que não exige assinatura de serviços por cabo), transmitindo conteúdos pluridisciplinares e de todos os anos de escolaridade, em condições de igualdade para todos. Os conteúdos assim lecionados podem ser objeto de avaliação formativa mas não devem ser considerados na classificação dos alunos.

 

Em segundo lugar, articular essas transmissões com atividades à distância, a partir das plataformas Moodle existentes em todas as escolas. Aos alunos sem acesso à internet deve ser garantido o acesso a fichas de trabalho em papel e meios de as devolver à escola.

Quanto aos alunos com necessidades educativas especiais, deve haver acompanhamento específico por professores tutores e técnicos especializados, em ligação com os pais, com transmissão de tutoriais ou guiões relacionados com a terapias específicas e/ou com as suas dificuldades.

No ensino profissional, deve ser feito o registo das atividades de aprendizagem realizadas à distância; o prazo de realização das tarefas deve ser alargado; cada escola/agrupamento deve ter autonomia quanto ao modelo de estágio profissional (uma vez que também pode ser desenvolvido em teletrabalho). O governo deve garantir acesso ao Ensino Superior em condições de igualdade com os alunos do ensino regular.

Finalmente deve ficar claro desde já um elemento essencial para toda a comunidade escolar: os exames do Secundário devem incidir apenas em conteúdos efetivamente lecionados; deve ser previsto o adiamento da sua realização e do prazo das candidaturas ao ensino superior; as provas finais do 9.º ano e de aferição devem ser suspensas.

A meu ver, isto tem de ser feito e agilizado o mais breve possível em nome de uma escola inclusiva, uma escola para todos e com futuro.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Professora.
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