Tendencialmente

porMarisa Matias

23 de julho 2010 - 12:20
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O que a nova liderança laranja nos propõe é um recuo de 30 anos na história das políticas de saúde.

Há cerca de um ano atrás, uma equipa de sociólogos, coordenada por Manuel Villaverde Cabral, apresentou um estudo sobre os portugueses e o Sistema Nacional de Saúde (SNS). Ele mostrava que o número de cidadãos a recorrer aos serviços públicos continuava a aumentar, independentemente do crescimento de unidades de medicina privada. Ao mesmo tempo, era nítida a queda do número de pessoas sem médico de família, inferior a 10%.

O que mantinha, então, a procura de serviços privados de saúde? As listas de espera.

Em 2008, a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) divulgara estatísticas que mostravam que as queixas sobre os serviços privados tinham duplicado num só ano. Razões? Principalmente, os tempos de espera e a qualidade da assistência. O que não funcionava bem no SNS é o que também não funciona por aí além no privado.

O que representa, afinal, o SNS? Mais de 130 mil consultas, 2300 internamentos e quase 900 cirurgias por dia. Desde a sua criação, o SNS permitiu reduzir a mortalidade infantil a um ponto que colocou Portugal na lista dos dez melhores do mundo. Apesar de todos os remoques e queixas justificadas, os portugueses ganharam anos, literalmente anos, com o aumento exponencial da esperança de vida.

É este serviço público que tem vindo a ser atacado nos últimos anos, de cada vez que se tem que “cortar” em alguma coisa. E é também ele, agora, um dos alvos do ímpeto “revisionista” de Pedro Passos Coelho. Ao propor a mudança do “direito à protecção da saúde”, assegurado “através de um SNS universal e geral (...) tendencialmente gratuito", por um mesmo direito, mas expurgado da última expressão (substituída por “não podendo, em caso algum, o acesso ser recusado por insuficiência de meios económicos”), o que a nova liderança laranja nos propõe é um recuo de 30 anos na história das políticas de saúde - uma “subversão completa do modelo social”, como bem referiu António Arnaut, o fundador do SNS.

Não me interessa aqui discutir a pertinência das propostas de Passos Coelho, o seu sentido político ou a sua viabilidade. Mas as intenções também contam. Ficaram claras as suas: no dia que tiver o poder, transformará o direito à saúde em pouco mais do que um acto de caridade.

Marisa Matias
Sobre o/a autor(a)

Marisa Matias

Dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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