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Stiglitz, Renzi e a disputa no PS

Na falta de diferenças com a direita, os socialistas europeus consomem líderes.

Primeiro foi François Hollande, promessa de renascimento da social-democracia, voz decidida contra o extremismo do tratado orçamental. Uns meses de mandato bastaram para uma capitulação tão completa que deixou os socialistas em mínimos históricos nas últimas europeias. O ciclo reabre-se e, por estes dias, os media internacionais fascinam-se com Matteo Renzi, jovem primeiro-ministro italiano a quem cabe agora entoar, com trinados de irreverência, a versão rosa do discurso europeu. Renzi é o rosto da “coragem política” e da luta pela “suavização das regras” do Tratado Orçamental.

O discurso de Renzi, que foi o de Seguro nas europeias e é o de Costa na sua campanha interna, mostra a que ponto vai a indigência neste campo. Sempre pesando as palavras, não vão soar a reestruturação da dívida ou a devolução do que foi roubado, estes dirigentes tomam a pose grave de libertadores da pátria, armados da sugestão, se possível, de uma moderação de metas (nunca quantificada), em acordo com a Alemanha, se os camaradas do SPD, ministros da chanceler, ajudarem. É fraca e dura pouco, mas é a política do PS: um aliviozinho no garrote orçamental e, de resto, força na austeridade e ajustamento estrutural: diminuir o Estado social e privatizar.

Stiglitz e o europeísmo sem Europa

Joseph Stiglitz, economista neo-keynesiano, escreveu há dias um artigo - “Como salvar um euro falido” que mereceu comentário internacional, mas não dos socialistas portugueses, ocupados em exercícios primários. Nele, o Nobel da economia enumera o seus mínimos para enfrentar a crise europeia: inversão total da política de austeridade, investimento massivo e reindustrialização da periferia, verdadeira união bancária e eurobonds. As propostas não são novas, mas estão cada dia mais longe da Europa realmente existente.

A união bancária assentou sempre na ideia de tratar a crise financeira com garantias públicas para liquidar bancos intoxicados e com rácios preventivos em vez da proibição de más práticas. Ora, em 2007/2008, depois da literal - e moral - falência do privado na condução do sistema financeiro mundial, a única questão relevante era a do controlo público dos bancos. Até hoje, é esse o ponto, como se confirma de novo em Portugal, no caso BES. Mas na zona euro nunca houve vislumbre de vontade de colocar a questão da propriedade bancária e as elites conservadora e socialista, totalmente corrompidas pelo poder da finança, preferiram socializar apenas os tóxicos. Hoje, o projeto de união bancária é pouco mais que a imposição de rácios e a inibição da iniciativa nacional sobre o único caminho sustentável: a nacionalização da banca.

Quanto aos eurobonds, a proposta de emissão de títulos de dívida europeus caducou às mãos de Merkel e com a rendição de Hollande. Já ninguém imagina qualquer mutualização que passe nas instituições europeias, muito menos que não implique a troikização total da Europa, com ainda mais concentração em Berlim de cada decisão sobre os orçamentos nacionais. O ministro das finanças alemão, Wolfgang Schauble, nem precisou de aceitar eurobonds para vir a Portugal defender “para amanhã” a imposição de um ministro das finanças do euro...

Igualmente inverosímil é o restante cardápio de Stiglitz: um plano de investimento público, crescimento e emprego, fundos de solidariedade para os países periféricos e até políticas de reindustrialização (aliás proibidas pela legislação europeia, como o proponente reconhece). Muito simplesmente, não há União Europeia para este europeísmo e o tempo está a passar.

O rei vai nu

O abismo entre a proposta Stiglitz e a realpolitik de um Renzi ou de um Costa mostra como é certo o óbito do projeto europeu. Mas a contínua devastação da austeridade impõe respostas de emergência. É por isso que Joseph Stiglitz - depois de apresentar um programa condenado na atual União Europeia - não esconde que o tempo impõe outras escolhas: “se a Alemanha e outros não fizerem o que é necessário - se não houver suficiente solidariedade para fazer as políticas funcionarem - então o euro poderá ter que ser abandonado”.

Alguns socialistas até já vão mais longe. Pedro Nuno Santos assume que “a zona euro é uma construção liberal e monetarista que torna impossível e inviável o projecto social-democrata. Teremos de romper com a direita precisamente onde houve consenso durante demasiado tempo – o projecto europeu”. O deputado acerta no diagnóstico, mas logo entrega os pontos à única disputa que existe no PS, a da liderança. E que diz o seu candidato sobre o confronto com o poder europeu? “Numa negociação a 28 é difícil prometer resultados sem o risco de desiludir”.

Tenha as cores e os rostos que tiver, o colaboracionismo com o poder europeu não será de esquerda. Em cada novo balão de “carisma” e “liderança”, a social-democracia encontra menos ar para respirar.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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