Sou realista

porPedro Amaral

12 de julho 2025 - 18:50
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Só nesta cegueira é possível perceber a confusão em que o conceito de liberdade está mergulhado: como é possível acharmos que a liberdade do outro não é a nossa? como é possível confundir direito e dever? Este realismo de hoje transforma vítimas em cúmplices, é surreal.

Durante muito tempo, para mim, quando se falava de realismo, em particular, de ser realista, interpretava como sendo a descrição de uma atitude racional, a sangue frio, de assentar os pés no chão para falar de soluções. Quem não tem sonhos, vê-o como um método em si; quem tem sonhos, encara o realismo como ou o diagnóstico do ponto de partida, ou a projeção do caminho a seguir até ao sonho. Quando se diz «sou realista» e soa a «surrealista», estamos perante uma ironia conspirada pelo som em que se traduz a nossa língua, uma vez que o surrealismo é, justamente, o oposto do realismo, na medida em que desconstrói e subverte o racional. Hoje, contudo, essa ironia parece já não existir, «sou realista» e «surrealista» sobrepuseram-se no que diz respeito ao retorcimento do racional. Hoje, alguém realista é quem acha que pensa racionalmente, mas, em bom rigor, está perdido na irracionalidade.

Como é isso possível? Algo é certo: falta-nos pensar, afinal, ser racional envolve um pensamento lógico. Sentimos que pensamos, não se trata de construir um percurso lógico, mas de uma perceção. O que sentimos que pensamos que substitui o nosso próprio pensamento e porquê? Vivemos sob uma pressão constante: são as contas, são as expectativas, são os prazos, são as redes sociais,… uma aceleração social que nos coloca num ritmo frenético, mesmo vivendo num local pacato. O nosso bem-estar está comprometido, refletindo-se na saúde, tanto a nível físico como mental. O desconforto não é amigo do pensar. Somos mais suscetíveis a atalhos argumentativos, a motes, a frases feitas, a qualquer material que não exija muito esforço mental – porque não o temos. O espírito crítico vai pelo cano abaixo, a honestidade intelectual nem tem oportunidade de ser mencionada. Ora, se não tivermos consciência deste nosso cansaço mental, podemos assumir que essas frases feitas são um percurso do pensamento, mas são, na verdade, só um pensamento, desconexo de tudo, que consideramos verdade, porque assim o assumimos sem qualquer crítica.

É claro que não chegámos a este ponto do nada: aqueles que trabalham de sol a sol certamente que não terão grande energia mental. Desde o início da Filosofia que se reconhece que é preciso ter tempo e a barriga cheia para se dar ao luxo de pensar. Aquilo que é estranho é que haja tantas barrigas cheias a não pensar. Falta tempo, portanto. E, de facto, falta, é a aceleração. Pessoas que teriam todas as condições para ter um espírito crítico não o executam. Aceita-se o discurso dominante e receia-se dizer o contrário – quer seja pela marginalização ou pelo esforço necessário a contra-argumentar. Não é impressionante que o sistema em que vivemos se perpetua, apesar do esgotamento em que nos coloca, precisamente por estarmos esgotados?

Bem sei que argumentar custa e contra-argumentar ainda mais: é preciso conhecer sobre o que se está a discutir, perceber a posição, criticá-la e, de preferência, apresentar uma outra posição.

Mas se não o fizermos, aceitaremos as desigualdades como uma inevitabilidade: como é concebível que haja alguém que possa comprar uma ilha e tanta gente que passe fome? Se não o fizermos, aceitaremos genocídios: como é possível que se assassine uma criança que recorreu à parca ajuda humanitária para se nutrir?

Só nesta cegueira é possível perceber a confusão em que o conceito de liberdade está mergulhado: como é possível acharmos que a liberdade do outro não é a nossa? como é possível confundir direito e dever?

Este realismo de hoje transforma vítimas em cúmplices, é surreal.

Pedro Amaral
Sobre o/a autor(a)

Pedro Amaral

Natural da ilha de Santa Maria, estuda Filosofia no Porto. Membro da Comissão Coordenadora Regional dos Açores do Bloco de Esquerda.
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