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Soprar velas nem sempre promete longevidade

Salvo por Draghi, o euro sobreviveu à primeira crise e a erros dos decisores europeus. Mas continua sem condições fundamentais para uma moeda comum. E essas condições foram, são e continuarão a ser impossíveis.

Os 20 anos do euro foram comemorados com alguma displicência. Artigos evocativos, champanhe discreto, e percebe-se a razão: o estado atual da União Monetária não recomenda fulgores. E, apesar das vergonhas recentes, foi até hoje um sucesso. Existiu, o que é sucesso suficiente, pois nem todos achavam que isso fosse possível. Como lembra “The Economist” na sua peça muito cética, Milton Friedman tinha anunciado, qual profeta da desgraça, que dez anos depois da sua inauguração o euro morreria e arrastaria consigo a União Europeia. Previsão falhada.

Em qualquer caso, se começou a desafiar as leis da gravidade e mesmo as do guru, como é que chegou ao ponto de descrédito atual, de tal modo que a sobrevivência do euro é o único ativo político da União, mas não se sabe se consegue resistir a uma crise?

FELICIDADE JUVENIL

No início, todos os Estados pensavam que ganhariam com o euro. Para a França de Mitterrand, era a forma de domar os ímpetos alemães e moderar as pretensões do Bundesbank. Para a Alemanha e o Bundesbank, era um preço de curto prazo pela unificação das duas partes do país e ainda garantia hegemonia política na escolha das políticas do BCE, o que determinou os tratados posteriores. Para os países do Sul, era a garantia de juros baixos, que compensavam os salários comprimidos pelas vagas de austeridade, facilitavam o investimento e a promoção do imobiliário. Para a Itália, seria a forma fácil de controlo da inflação. É um facto que todas estas expectativas foram cumpridas.

Só que depois chegaram as contrariedades. Juros baixos mas bolha imobiliária em Espanha. Fluxos de capital mas aventuras astronómicas na Holanda. Crédito fácil e corrupção e compras de submarinos na Grécia (em Portugal houve também compra de submarinos com corrupção pelos vendedores alemães, mas é certo e sabido em tribunal que eles pagaram mas ninguém recebeu). O BCE funcionou no início de acordo com os ditames do Bundesbank. E a França continuou no eixo Paris-Berlim, mas no fim do jogo ganham os alemães.

Resultado: as promessas que contavam, que eram as da convergência real num espaço económico unificado, não se realizaram. Não houve igualização de salários ou de condições contratuais (que implicariam uma repressão salarial pela concorrência do “canalizador polaco”) nem sequer importantes transferências de trabalhadores para um mercado de trabalho unificado, o sonho neoliberal. Houve poucos ganhos com a liberdade de circulação de mercadorias e nada que se parecesse com a chuva de empregos que os doutos relatórios da Comissão tinham adivinhado.

É certo que nada disso exigia os erros de gestão que acabaram por se verificar, mas assim foi com a Grécia, que foi impedida de proceder a uma restruturação relevante da sua dívida mesmo depois da operação de resgate da banca francesa e alemã que tinha títulos gregos, assim foi com a subida dos juros em 2009, agravando a recessão, ou em 2011, comprometendo a modesta recuperação. No que o euro não falhou foi na imposição estrutural de medidas de agravamento recessivo em resposta à recessão do subprime e da crise das dívidas soberanas. Implacáveis, as autoridades europeias, com o reforço do FMI, cumpriram a sua missão. É por causa desse sucesso que, chegado a 2019, o euro, com 20 pesados aninhos, vive uma precoce senilidade.

SENILIDADE PRECOCE

Salvo in extremis por Draghi e pela capacidade de adaptação do BCE, o euro sobreviveu à primeira crise e aos erros dos decisores europeus. Mas continuou sem ter as condições fundamentais para uma moeda comum. E essas condições foram, são e continuarão a ser impossíveis. O Orçamento comunitário continua a ser pacatamente reduzido enquanto se vai discutindo a virtude do fingimento do seu aumento. Não haverá transferências para estabilizar a economia europeia e só existem formas de integração que são destrutivas ou que agigantam os riscos, como a concentração bancária no Santander no sul e no Deutsche Bank no centro europeu. “Too big to fail”, diziam. Pois é o que temos e é o que falhará.

Para mais, com um balanço do BCE inflacionado para 4,5 biliões de euros e Draghi de saída, com juros negativos a curto prazo, a capacidade de atuação anticíclica é reduzida, depende de imaginação sem instrumentos. Ao mesmo tempo, a “reforma do euro”, prometida desde 2012, desvanece-se numas artimanhas, um orçamento euro que reclassifica uns fundos já atribuídos, umas vagas promessas que em Portugal, com o nosso Ronaldo, são paroquialmente festejadas como vitórias olímpicas e a que ninguém na Europa dá o menor crédito. Fica só uma certeza: na UE, não há função de estabilização, o que quer dizer que venha a crise e fugimos para os botes salva-vidas.

Diz sorumbaticamente “The Economist” que “nos primeiros 20 anos do euro [os decisores políticos] fizeram o suficiente para o manter vivo. Os próximos 20 anos serão menos complacentes. Haverá inevitavelmente uma crise e, se os políticos não a enfrentam através de reformas, podem bem assistir ao fim do euro”. No fim das contas, só um resultado é certo: o ‘Brexit’, mais a queda de popularidade de Macron, mais o governo italiano, mais o centro da Europa, mais a austeridade no sul, mais as dívidas gigantes, o resultado de 20 anos é indisfarçável.

Artigo publicado no jornal Expresso a 12 de janeiro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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