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Sondagens de bolso

A escolha dos meios de comunicação em bombardearem diariamente os cidadãos com uma barragem de informação estatística imprecisa e enviesada é uma escolha preguiçosa.

Até ao final da campanha eleitoral haverá sondagens diárias por parte da Intercampus (encomendada pelo Público, TVI e TSF) e Universidade Católica (encomendada pela RTP). Além destas, continua a existir a sondagem semanal da Eurosondagem, encomendada pelo Expresso e pela SIC.

A 25 de Setembro, os resultados são:

Intercampus

Católica

Eurosondagem

PS

32,9% [29,8-36%]

34% [31-37%]

36% [33,51-38,49%]

PàF

37,9% [34,8-41%]

41% [38-44%]

35,5% [33,01-38%]

CDU

7,8% [4,7-10,9%]

9% [6-12%]

10,1% [7,61-12,59%]

BE

6% [2,9-9,1%]

7% [4-10%]

5% [2,51-7,49%]

Outros

4,5%
[1,4 -7,6%]

4% [1-7%]

13,4%
(inclui
brancos/nulos) [10,91-15,81%]

Erro

+/- 3,1%

+/- 3%

+/- 2,49%

Ora, cada uma destas amostras, feitas para o mesmo período (até 23 de Setembro) e no mesmo país, indica um cenário diferente: uma vitória do PS sem maioria absoluta (Eurosondagem), uma vitória da PàF sem maioria absoluta (Intercampus) e uma vitória da PàF com maioria absoluta (Católica). Além disso dão um nível de variabilidade gigante no eleitorado: o PS entre 29,8% e 38,49%; a PàF entre 33,01% e 44%, a CDU entre 4,7% e 12,59%, o BE entre 2,51% e 10%, os outros entre 1,4% e 7,6% (a Eurosondagem junta brancos e nulos aos “outros”, não é comparável). Falamos de mais de um milhão de votos a mais ou a menos para PS e PàF, e mais de meio milhão para cima ou para baixo para a CDU e o BE.

A Eurosondagem fez 1867 entrevistas, das quais apenas 1467 contaram, e 19,2% das pessoas entrevistadas responderam que não sabem / não respondem. Há, portanto, 1185 respostas a dar forma à sondagem. A Intercampus, com 1017 entrevistas, e com uma taxa de resposta de 58,1%, conseguiu 590 pessoas, não indicando quantas responderam que não sabem / não respondem na ficha técnica. A Católica entrevistou 1046 pessoas, com uma taxa de resposta de 67%, o que significa que obteve 700 respostas. Destas, 35% terão dito que não sabem / não respondem, pelo que a sondagem tem como base 455 respostas.

As “tracking polls”, sondagens diárias como são as da Intercampus e a da Católica, têm especificidades: as da Intercampus começaram a 21 de Setembro e adotam o método de todos os dias eliminarem 250 das entrevistas mais antigas e realizarem 250 novas entrevistas. O que significa que, além da sondagem inicial ter sido feita com base em 590 pessoas, as “atualizações” têm sido feitas com base em 250 entrevistas potenciais. Se registarem uma taxa de resposta de 58,1%, como indica a sondagem inicial às 590, a “tendência” baseia-se na opinião de 145 pessoas. Essas pessoas são pessoas atendem números desconhecidos, têm disponibilidade durante o horário de trabalho para atender o telefone e, além disso, a paciência de responder a um inquérito que seguramente dura alguns minutos.

A escolha dos meios de comunicação em bombardearem diariamente os cidadãos com uma barragem de informação estatística imprecisa e enviesada é uma escolha preguiçosa. A missão dos media é a divulgação da informação, e não a criação da mesma, especialmente de informação de credibilidade dúbia.

As estratégias das grandes agências de comunicação, da Cunha e Vaz, LPM ou Next Power, de virar o mundo de pernas para o ar e poder dizer uma coisa e o seu contrário, não são o exemplo a seguir pelos mais importantes meios de comunicação em Portugal, que agora se entretêm a fazer crer que de 21 até 29 de Setembro milhões de portugueses vão oscilar os seus votos diariamente com base numa campanha esgotada. Ao invés, deviam apresentar ao país a resposta à pergunta que necessita mesmo ser respondida: que futuro nos propõe cada uma das alternativas?

Artigo publicado em p3.publico.pt em 25 de setembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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