Somos galo e muito mais!

porMiguel Martins

16 de agosto 2024 - 23:30
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Como dizia Brecht, a arte não é um mero espelho da realidade, mas sim um martelo que a muda e transforma. Há que dinamizar a produção cultural e artística em Barcelos, caso contrário iremos perder, a longo prazo, parte da nossa identidade coletiva.

Acontece, por estes dias, a 41.ª Mostra Internacional de Artesanato e Cerâmica de Barcelos. Todos os anos, milhares de pessoas, barcelenses e não só, vão até ao Parque da Cidade para ver a Feira do Artesanato, como simpaticamente a conhecemos.

Na Feira do Artesanato podemos visitar uma exposição dos trabalhos de vários artistas nas mais diversas áreas do Artesanato, seja figurado, olaria, bordados, cestaria ou trabalhos em madeira, ferro e outros materiais. Ou apenas ir ao Parque da Cidade para assistir a concertos e espetáculos populares, participar em workshops ou simplesmente conviver com família e amigos, aproveitando os vários espaços de alimentação e gastronomia que lá se encontram.

Sem sombra de dúvida que a Feira de Artesanato representa um momento maior do nosso concelho. Pessoalmente, sou um forte entusiasta deste momento cultural, com particular interesse na olaria e no figurado da região. No entanto, é necessário olhar para este evento de forma crítica.

O município de Barcelos orgulha-se de ser Cidade Criativa da UNESCO, com uma forte aposta na Cultura e no Património. Mas será essa aposta assim tão eficaz ou uma ilusão que se tenta demonstrar com a realização de alguns eventos?

Pergunto isto porque, infelizmente, a realidade de quem trabalha na Cultura em Barcelos é completamente oposta do que é transmitido em momentos como a Feira do Artesanato, seja em que área cultural for.

Desde a falta de espaços até à ausência de apoios financeiros, são várias as medidas que o Executivo municipal poderia e deveria implementar, de forma a responder aos vários problemas que há muito que existem e estão identificados. Resta esperar por coragem do poder político para avançar com soluções que dignifiquem, cada vez mais, a Cultura e o Património barcelense.

Pergunto-me, desde logo, o porquê de ainda não existir, em Barcelos, uma Escola de Artes e Ofícios. Através desta iniciativa seria possível, além de garantir a continuidade e ensino destas formas culturais, abrindo-as à população, proporcionar um espaço próprio às e aos artistas para a produção nos setores do artesanato. Infelizmente, esta Escola parece estar fechada nas gavetas no Município, cujos sucessivos Executivos camarários sempre recusaram pôr em prática esta iniciativa (apresentada pelo Bloco de Esquerda ao longo dos anos).

Uma outra questão que levanto prende-se com a Música em Barcelos. O nosso concelho é conhecido como um dos locais mais emblemáticos da música alternativa portuguesa. Ao longo de dezenas de anos, o rock de Barcelos foi central no panorama musical português, com a proliferação de inúmeras bandas. Hoje, continua a existir vontade e dinamização por parte de barcelenses (pensar em iniciativas como o Triciclo, que organiza concertos itinerantes em vários pontos de Barcelos, ou o "Que Força É Essa", um dia dedicado à música para celebrar os 50 anos do 25 de Abril), embora lugares emblemáticos como o Xispes ou o Círculo Católico Operário de Barcelos (o CCOB) tenham fechado portas. É fundamental apoiar a produção de música em Barcelos e, nesse sentido, o Executivo camarário deveria promover a criação de espaços para ensaio e apresentação de projetos - não apenas na área da música experimental, mas também enquadrando outras formas de expressão cultural.

Com o passar do tempo, a identidade cultural de Barcelos assumiu várias formas. Da cidade do rock à cidade do galo, o nosso concelho é sobejamente conhecido pela Cultura, seja qual a forma que assuma. Mas, se queremos que a Cultura continue a ser um dos nossos cartões de visita e que momentos como a Feira de Artesanato possam acontecer, há que garantir políticas de apoio e investimento sérias que, de facto, valorizem este setor da sociedade.

Como dizia Brecht, a arte não é um mero espelho da realidade, mas sim um martelo que a muda e transforma, contribuindo, invariavelmente, para a maior das artes: a arte de viver. Há que dinamizar a produção cultural e artística em Barcelos, caso contrário iremos perder, a longo prazo, parte da nossa identidade coletiva.

Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a de 1 de agosto de 2024

Miguel Martins
Sobre o/a autor(a)

Miguel Martins

Sociólogo. Mestre em Geografia. Estudante na Universidade do Minho
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