Solidariedade com a esquerda francesa

porJosé Joaquim Ferreira dos Santos

28 de setembro 2024 - 23:40
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Para evitar um governo de esquerda, Macron não hesitou em aliar-se a essa mesma extrema-direita, como tem vindo a ser habitual nos partidos liberais por toda a Europa. A esquerda europeia deve manifestar a sua solidariedade com a Nova Frente Popular.

O sistema político que regula a vida política francesa é substancialmente diferente do nosso, em variadíssimos pontos, o que provoca alguma incompreensão por parte de analistas políticos.

Em França quem governa, de facto, é o Presidente da Republica, que indigita o primeiro-ministro para que este aplique internamente as suas políticas.

O facto de as eleições legislativas se realizarem em duas voltas, condiciona a acção política permitindo o reagrupamento de forças, o que em Portugal não se verifica.

Após a vitória da extrema-direita nas Eleições Europeias pela União Nacional de LePen e Bardella, e perseguido por uma situação social que apodrece a olhos vistos, Emmanuel Macron decide-se pela dissolução do Parlamento e convoca Eleições Legislativas, pensando assim sacudir a extrema-direita que o acossava.

Nada de novo, para além da cegueira de Macron, da sobranceria de LePen/Bardella, a única novidade é o surgimento de uma Nova Frente Popular, que agrupa comunistas, socialistas, verdes e a France Insoumisse, que num curtíssimo prazo, consegue cimentar uma aliança eleitoral e apresentar um programa.

Na primeira volta eleitoral, o partido de LePen/Bardella, a União Nacional, atinge 34% dos votos, enquanto a NFP, a aliança de esquerda, obtém 28,5% e o partido de Macron fica em 20%, enquanto os Republicanos apenas chegam a 6,7%.

Os apelos a desistências reciprocas, entre os partidos antifascistas, isto é, onde uns tivessem possibilidades de derrotar a extrema-direita os outros desistiam, teve alguma audição, mostrando claramente que muitos franceses repudiam a extrema-direita e as suas políticas

A segunda volta trouxe a novidade de a esquerda, agrupada na Nova Frente Popular alcançar a vitória relativa com 182 eleitos, o partido de Macron com 168 deputados, a extrema-direita de LePen em terceiro lugar, com 143 eleitos e os Republicanos com 46 deputados.

Logo nessa noite eleitoral Emmanuel Macron afirmou que apenas tomaria decisões após a composição da Assembleia Nacional.

A realização dos Jogos Olímpicos de Paris foi um pretexto para adiar a tomada de posição, com a NFP a afirmar que o presidente face aos resultados deveria curvar-se e aceitar os resultados da votação.

O primeiro-ministro Gabriel Attal pediu entretanto a demissão, para permitir a nomeação de um novo governante, depois do resultado eleitoral pouco favorável dos Macronistas.

As negociações entre os partidos da Nova Frente Popular foram-se desenrolando e foi apresentada a candidatura de Lucie Castets, alta dirigente da Câmara de Paris, que se tem distinguido na defesa dos serviços públicos, não inscrita em nenhum dos partidos da NFP.

Emmanuel Macron, mais uma vez mostrou a sua estranha concepção de democracia, recusando nomear a candidata proposta pela aliança vencedora.

Decide então, nomear o membro do Partido Republicano, Michel Barnier, indigitado após assegurar a aceitação por LePen, que deste modo acaba por ficar com um poder que não obteve nas urnas. Tal conluio corre, apesar de Macron ter apelado anteriormente a que o poder não fosse entregue à extrema-direita.

Macron rapidamente esqueceu o seu apelo à “barragem da extrema-direita” e, para evitar um governo de esquerda não hesitou em aliar-se a essa mesma extrema-direita, como tem vindo a ser habitual nos partidos liberais por toda a Europa.

Trata-se de uma espécie de golpe de estado palaciano, levado à prática por um manipulador que tem enganado toda a gente, que faz propostas mirabolantes, como o envio de tropas francesas para a Ucrânia, que consegue indispor-se com sindicalistas e patrões, que provoca semanas de caos em todas as cidades francesas aquando da crise dos gilets jaunes, enfim um dirigente pouco equilibrado, com um ego inflamado, demasiado preocupado com a sua vaidade pessoal.

A vitória da esquerda em França constitui um passo muito importante, dado que rompe com a série de desaires a que se tem assistido na Europa.

A não-aceitação, por parte dos partidos da NFP, da indigitação do primeiro-ministro Barnier, que de uma forma ou outra é refém de LePen, vai tornar este Outono muito quente em França.

A esquerda europeia, antifascista, antirracista, defensora dos direitos humanos, ecológica e antimilitarista, tem a obrigação de manifestar a sua solidariedade com a Nova Frente Popular e com cada um dos partidos que a compõem. Comecemos por desmascarar mais este golpe palaciano.

A luta da Nova Frente Popular deve ser, neste momento, a luta de toda a esquerda europeia.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Sobre o/a autor(a)

José Joaquim Ferreira dos Santos

Reformado. Ativista do Bloco de Esquerda em Matosinhos. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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