A 18 de maio, por decisão do Internacional Council of Museums (ICOM) em 1977, comemora-se o Dia Internacional dos Museus. Este ano, o mote foi a valorização do papel dos museus para a educação e a investigação. A data é um momento que o poder político e a sociedade civil devem apadrinhar, especialmente este ano, onde também se comemoram os cinquenta anos do 25 de Abril. Por isso, é preciso dizer que falta um museu, há tanto reivindicado, há tanto esperado. Trata-se do Museu da Resistência e da Liberdade no Porto.
“Falta um! Falta um!”, gritava o povo em polvorosa, que rodeava o edifício da PIDE/DGS na Rua do Heroísmo, no Porto, corria já o dia 26 de abril de 1974. Em causa estava a libertação do último preso político, que permanecia ainda nas instalações, já vinte e quatro horas após o movimento de capitães ter tomado a PIDE. Jorge Carvalho, mais conhecido por Pisco, acabou por sair numa viatura do MFA para ser transferido para o Quartel General, na Praça da República. Poucas horas depois, acabou por ser libertado.
A população portuense, a partir do momento em que começou a ser informada da operação dos capitães na manhã do dia 25, rapidamente se movimentou para a Rua do Heroísmo. Aquele espaço é, no Porto, o principal símbolo da repressão fascista ao longo de quarenta e oito ano, mas é, ao mesmo tempo e exatamente por isso, um ícone da resistência antifascista. É ali que todos os anos desde esse primeiro dia do resto das nossas vidas - como nos canta o Sérgio Godinho - parte o desfile do 25 de Abril.
Milhares de homens e mulheres opositores ao Estado Novo passaram por aquelas instalações. Foram presos, interrogados, torturados, deportados para outras prisões como Caxias, Peniche ou Tarrafal e, alguns, mortos. Foi cárcere para alguns resistentes de Cambedo da Raia, para dezenas de dirigentes do PCP na clandestinidade e, mais tarde, de outras organizações políticas, para operários e sindicalistas das lutas e greves de toda a região norte, para um conjunto vasto de jovens empenhados nas lutas estudantis e contra a guerra colonial e para outros tantos resistentes do mundo da música, das artes, das letras, do ensino e da ciência.
Por todas estas razões, é imperativo que as políticas públicas das áreas do Património Cultural e da Memória coloquem no centro do debate a criação deste novo equipamento museológico na cidade do Porto. No passado dia 27 de abril - data da libertação dos últimos presos políticos em 1974, Peniche foi palco da inauguração do Museu Nacional da Resistência e da Liberdade. Em Torres Novas, deu-se corpo a um novo espaço: trata-se do Centro Humberto Delgado. Em Castelo de Vide, a Casa da Cidadania Salgueiro Maia preserva e expõe o espólio pessoal de uma das principais figuras da Revolução. Desde 2015 que no Museu do Aljube se dá voz e sentido crítico a esta tarefa do tratamento da memória antifascista. Em Coimbra, o Centro de Documentação 25 de Abril desenvolve, há muitos anos, um trabalho exemplar na salvaguarda desta memória. Esta constelação de espaços de memória são motivo de orgulho e merecem, inclusive, uma rede pública que materialize um programa conjunto e partilhado sobre a memória da resistência e da Revolução dos Cravos.
O atual regime político é filho da Revolução. O que parecia ser uma matéria consensualizada na sociedade portuguesa, tornou-se motivo de disputa política e ideológica. A recomposição das direitas portuguesas, em linha com a dinâmica internacional que traça um caminho de fascização do seu discurso, atuação e programa, deturpa hoje a memória do 25 de Abril para atacar as liberdades, os direitos e as garantias conquistadas com a Revolução e pela Revolução. O tempo passa e as duas rupturas político-sociais com o momento fundador do regime dão-se em nome dessa disputa pela memória coletiva, em primeiro lugar, e ainda, em segundo lugar, pelo normal passar do tempo, onde tudo se torna mais ténue e difuso. A tarefa de qualquer democrata deve ser, interpretando o milhão que saiu à rua no passado dia 25 de Abril de 2024, construir uma nova consciência histórica onde a Revolução dos Cravos não é um bibelot do passado mas uma ideia e projeto de futuro.
Convém, ainda a respeito da necessidade de um museu sobre o antifascismo no Porto, assinalar que, atualmente, o Estado já alienou as principais instalações onde a PIDE/DGS funcionou. A sede central da polícia política salazarista, na rua António Maria Cardoso em Lisboa, foi vendida pelo Estado em 2005 a um privado, que lá instalou um condomínio de luxo. Em Coimbra, a antiga delegação da PIDE é hoje um hostel para turistas. No Porto, o edifício é administrado pelo Exército e abarca o atual Museu Militar. Este equipamento foi inaugurado em 1980 e a sua instalação naquele espaço implicou a destruição de uma parte substantiva das celas onde milhares de presos políticos estiveram presos durante o Fascismo. A memória coletiva do palacete da Rua do Heroísmo não é nem nunca foi de cariz militar, foi sim de todos e todas que por ali passaram enquanto opositores ao obscurantismo que assolou o país durante longos quarenta e oito anos. Ainda vamos a tempo de garantir que o único edifício da PIDE ainda nas mãos do Estado se transforma num espaço de memória antifascista.