Só isto.

porSusana Constante Pereira

04 de outubro 2025 - 20:37
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Este não é um texto sobre a Mariana. É sobre a esperança. Sobre o presente que queremos para quem tem 20 e poucos anos e o direito a aspirar a outra realidade. Sobre o futuro que temos a responsabilidade de tornar possível.

Lembro-me de ter 15 ou 16 anos e dizer aos meus amigos que não pretendia ter filhos. Não queria pôr filhos num mundo capaz das atrocidades que já naquela altura via acontecer. Com 25, tive a Alice - e 19 dias depois dela nascer aconteceu o 11 de setembro. Vem-me muitas vezes à memória, isto, em momentos em que nos deparamos com situações em que a nossa vida coletiva fica um bocadinho pior. E, na conjuntura que vivemos, ela fica um bocadinho - um bocadão - pior a cada dia.


Qualquer uma das situações de violência bélica que assolam as mais diversas geografias do planeta me revolve as entranhas. Incluindo aquelas de que alguns só se lembram para usar como instrumento de retórica, comparando sofrimentos e pondo numa balança grotesca o valor das vidas de uns e de outros, a ver qual pesa mais. E sempre foi para mim inexplicável que, na base dos posicionamentos geopolíticos a que vamos assistindo, os interesses económico-financeiros se sobreponham à dignidade humana. Vemos isso acontecer sistematicamente - e é isso que justifica a total ausência de escrúpulos de algumas pessoas sem espinha dorsal, que ouvimos com demasiado tempo de antena.  Haver pessoas, povos, geografias que se tornam o elo mais fraco simplesmente porque, à luz dos poderes instalados, não têm nada para moeda de troca é algo que me angustia, me acicata a raiva e me tira o sono. E sei que a tantas pessoas como a mim. Às pessoas todas que, na quinta-feira, estiveram nas ruas pela Palestina, por exemplo. Às jovens como a minha filha, que hoje faz a sua própria matemática para ajustar aspirações de vida e que, sobretudo, não se conforma com esta pretensa ordem natural das coisas. E a pessoas como a Mariana e os mais de 400 ativistas que se enfiaram em “barcaças” há um mês para sacar do mundo o grito de revolta que está há demasiado tempo entalado.


Mesmo sem ter conseguido tocar a areia, e muito menos a mão de alguém que, no mínimo, vale o mesmo que ela, que eu, que a Alice, que qualquer ser humano, acredito que o que está na cabeça da Mariana está a sentir neste momento é este ímpeto de converter angústia em ação, esta esperança de conseguir mudar alguma coisa, esta convicção de que o poder que alguns se arrogam não é uma fatalidade. Com a bitola do que sinto e vejo espelhado em tanta gente à minha volta todos os dias, estou convicta de que é feita desta matéria a coragem que corre nas veias da Mariana enquanto está numa prisão, num lugar estranho, num país também ele flagelado pela violência e pelo ódio perpetrado pelo seu governo e por quem o apoia, mesmo ao lado de um território em que as vidas das pessoas são tidas por lixo.

É isto que tenho a certeza que a Mariana, numa prisão do Médio Oriente, converte em força - na exata proporção da nossa preocupação com ela e com todos os que ontem foram ostensivamente humilhados por não se resignarem, num número de propaganda de um ministro da extrema-direita.


Eu não sei o que responderia se me convidassem para embarcar na próxima flotilha - porque elas não vão parar - ou no próximo comboio que tente fazer chegar a ajuda humantária que é impedida de chegar às crianças da Palestina, às mulheres da Palestina e aos homens da Palestina que, mesmo habituados há décadas a que as suas vidas são pequenos milagres de sobrevivência ao ódio e ao desprezo, hoje se veem literalmente estropiados e esfarrapados. Não sei o que responderia nem como pesaria na balança uma decisão com todas as camadas de repercussões que traria à minha vida e às das pessoas que me rodeiam. Mas sei o que respondeu a Mariana. E sinto-me tão representada como convocada por ela na luta que temos em curso - e que está longe do seu fim.


Tudo isto dito, fique claro: este não é um texto sobre a Mariana. É sobre a esperança. Sobre o presente que queremos para quem tem 20 e poucos anos e o direito a aspirar a outra realidade. Sobre o futuro que temos a responsabilidade de tornar possível. Sobre a dignidade humana. Sobre a liberdade. E sobre a convicção de que o mundo só será inteiro e justo com uma Palestina Livre.

Susana Constante Pereira
Sobre o/a autor(a)

Susana Constante Pereira

Deputada municipal e dirigente concelhia do Bloco de Esquerda do Porto
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