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Só há liberdade a sério quando pertencer ao povo o que o povo produzir

Quem está realmente do lado certo do 25 de Abril continuará a lutar para que a receita não seja a da austeridade imposta a quem menos tem e das benesses aos que mais lucros acumulam.

Este ano o 25 de Abril será diferente de todos os outros.

Não teremos o desfile de milhares de cravo ao peito na Avenida da Liberdade nem nas restantes cidades do país. Não teremos as horas de espera que são sempre de impaciência, mas também de excitação, antes de a marcha arrancar. Não teremos as palavras de ordem e os cartazes a reivindicar tudo o que ainda falta nesta democracia.

Um inimigo silencioso e desconhecido roubou-nos a normalidade e transformou-nos a vida. Trouxe consigo o medo e a morte. Arrastou milhões para uma crise económica sem precedentes. Mas é precisamente nestas alturas, em que o mundo inteiro está no mesmo barco, que é preciso remarmos todos no mesmo sentido. Conter a crise sanitária, responder à crise económica e social com solidariedade e justiça. Isto é cumprir Abril e cumprir a democracia.

O Bloco de Esquerda defende um conjunto de medidas urgentes para salvar o emprego e garantir que ninguém fica para trás.

  • Reconhecer quem tem estado na linha da frente do combate à pandemia, atribuindo-lhe um subsídio de risco.

  • Salvar o trabalho e a vida das pessoas, proibindo os despedimentos a todas as empresas que têm apoios públicos ou contratos públicos.

  • Acudir aos desempregados, diminuindo os prazos de garantia para acesso ao subsídio de desemprego e ao subsídio social de desemprego.

  • Garantir o acesso ao rendimento social de inserção a quem ficar sem qualquer rendimento e sem qualquer apoio.

E o Bloco defende também medidas estruturais de defesa de uma das maiores conquistas de Abril – o Estado Social. Não esquecemos que é preciso investimento sério no Serviço Nacional de Saúde ou o controlo público de setores estratégicos da economia, dos transportes à comunicação e à energia.

É que, se esta crise pandémica servir para alguma coisa, será para que fique provado que quem garante a nossa segurança e a continuação da vida é o serviço público. Os privados demitem-se de qualquer responsabilidade mal a corda aperta. Os grupos privados da saúde aproveitam o desespero para sugar aos doentes e ao Estado tudo o que puderem. Grandes empresas, como a GALP ou a EDP, distribuem dividendos de milhões de lucros enquanto despedem trabalhadores. As grandes indústrias que mais podem são as primeiras a aproveitar o lay-off e a depauperarem a Segurança Social.

Estas estratégias são conhecidas, são a marca de um capitalismo sanguinário. Os que mais têm exploram os outros e não vão deixar de o fazer sem luta. As forças reacionárias aproveitam-se do medo e do desespero para se vingarem da raiva que a democracia lhes provoca e os capitalistas apanham esse comboio.

O que espanta é que supostos defensores da democracia, da liberdade e da solidariedade entrem também nesse comboio assim que chegam ao poder.

Exemplo disso é quem, com responsabilidades autárquicas no distrito de Setúbal, recusa celebrar Abril e só com pressão do Bloco de Esquerda aceita essa celebração. Ou quem rejeite, sem contemplações, a construção de um programa de emergência social para ajudar quem mais precisa.

A guerra será difícil, mas quem está realmente do lado certo do 25 de Abril continuará a lutar para que a receita não seja a da austeridade imposta a quem menos tem e das benesses aos que mais lucros acumulam.

O Bloco de Esquerda, em Setúbal e em todo o país, está pronto para essa luta com a convicção, como cantava Sérgio Godinho, de que “só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir”.

Artigo publicado em “O Setubalense” a 24 de abril de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Professora universitária. Socióloga.
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