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“Sindicato de credores”

Na sua infinita capacidade de idear novilínguas, Paulo Portas projetou um novo conceito: “sindicato de credores”. Será que a ideia colou?

Faz algum tempo que Paulo Portas se refere à Troika como “sindicato de credores”.

Trata-se de uma declaração extemporânea? Muito provavelmente não.

Em 2013, face à ampla contestação de que era alvo o Governo da Troika, que ele próprio integrava, o líder do PP precisava de desenhar uma estratégia que lhe permitisse responder ao desgaste político entretanto sofrido e garantir a sua sobrevivência política.

É nessa linha que veio a demissão em junho desse ano. Procura distanciar-se da Troika e do PSD e abrir espaço à possibilidade de assumir posição política autónoma no quadro de uma nova disputa eleitoral.

A revogação do irrevogável obriga-o a engendrar um plano B: encenar a saída da Troika, afiançando simultaneamente a sua continuidade.

O plano, tendo sido bem improvisado, não tinha nada de extraordinário. O Tratado Orçamental e o Semestre Europeu facilmente poderiam fazer o mesmo que o Memorando, causando menos ruído.

É que tinha sido muita gente, demasiada, a gritar “Que se lixe a Troika!”.

No entanto, para a encenação funcionar era necessário um refinamento do discurso, uma novilíngua, que permitisse baralhar e dar de novo... e executar o tal plano.

É aqui que Paulo Portas mostra a sua mestria. Depois de ensaiar o discurso da emancipação face à troika, entusiasticamente celebrada, aproveita as comemorações do 40º aniversário do CDS-PP para vincar o seu distanciamento:

Nós não gostamos de ver o nosso país entregue a um sindicato de credores estrangeiros porque houve em Portugal governos irresponsáveis que não souberam controlar o défice nem a dívida.

Ora, “sindicato de credores” constitui um desenvolvimento (novi)linguístico particularmente imaginativo, pois mais não faz do que conjugar a palavra interesses que a política da austeridade mostrou serem bem antagónicos, contraditórios.

A expressão parece resultar de uma tradução atabalhoada de syndicate, usada por vezes na literatura anglo-saxónica para referir um grupo ou consórcio credores.

Usar sindicato com este sentido, além de forçado, não é correto, não é exato, mas tem o potencial de produzir um efeito simbólico e outro instrumental:

Primeiro, porque coloca ao mesmo nível sindicatos e credores, trata-os como partes iguais e esbate a natureza histórica e de classe dos sindicatos, bastante evocada neste ciclo de protestos. Além disso, nesta colagem figurativa são os sindicatos que saem a perder, visto que os credores tinham cada vez menos seguidores.

Segundo, porque estava cumprida grande parte memorando e as suas instruções. Afinal, a direita conseguiu fazer em dois anos o que não tinha conseguido fazer em décadas, que mais poderia querer? Agora, o que era preciso era agradecer os heroicos sacrifícios “dos portugueses” e apelar ao compromisso, à conciliação de interesses.

Ou, como diz a canção, era tempo de dizer: consolida filho, consolida...

Essa estratégia permitiria, assim, facilitar a sobrevivência política da direita e, quem sabe, a sua renovação.

O mais curioso nos resultados das eleições é que o plano (quase) resultou. Quase, porque esta novilíngua ainda não colou, pelo menos não de forma decisiva.

Ainda bem que assim é. Essa é, aliás, uma das principais boas notícias no rescaldo de domingo.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora bolseira e doutoranda em sociologia. Ativista para o que faz falta
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