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Sindicalismo combativo: “independente” ou “unitário”?

Não há receitas mágicas e cada caso é um caso. Mas podemos tirar conclusões da experiência, recente e antiga: por algum motivo a palavra “união” é, em várias línguas, sinónimo de sindicato. Pois é ela que faz a força.

Recorrentemente, é notícia a formação de um novo sindicato – invariavelmente “independente”. Por vezes, é o primeiro sindicato num determinado sector; outras, é mais um de uma longa lista de sindicatos que disputam o mesmo espaço. Em alguns casos, nascem assim verdadeiras associações de classe, enraizadas e reivindicativas; noutros, são meras siglas, cascas vazias, ora bem intencionadas ora instrumentais.

Ainda que no, computo geral, o sindicalismo externo às duas centrais seja pouco expressivo, a ideia de que o rejuvenescimento sindical se pode e deve fazer por fora das organizações tradicionais e das centrais, nomeadamente da CGTP, tem lastro. A ideia é sedutora para alguns ativistas dedicados, mas também tem eco nas bases trabalhadoras. Não poucas vezes, é alimentada por experiências reais em que as direções sindicais existentes não estiveram à altura dos desafios. Outras, nasce da despolitização e de preconceitos nada positivos. O individualismo da nossa época, não raras vezes, expressa-se como corporativismo ou como sindicalismo dito apolítico. Por isso, o tema interessa, independentemente da força que possam ter ou não este sindicalismo “independente”.

Surgiu um sindicalismo alternativo?

Vimos, há poucos anos, o surgimento de várias novas experiências sindicais na enfermagem, na docência, na indústria automóvel, nos transportes, entre outros exemplos. Só em 2017, três novos sindicatos de enfermeiros foram fundados.

Porém, a verdade é que estas experiências são diferentes entre si. Não expressam o ímpeto vindo das bases por um sindicalismo combativo e democrático.

Houve casos em que novos sindicatos foram fundados no calor de importantes greves – o caso dos enfermeiros e motoristas de matérias perigosas, por exemplo. Mas em que, enquanto as lutas de base revelaram uma radicalização positiva, as novas associações delas nascidas revelaram um misto de impreparação e de oportunismo, sendo um retrocesso face ao existente. Noutros casos, ainda que apoiados em lutas reais, novos sindicatos representaram mais a vontade de pequenos núcleos militantes controlarem instrumentos sindicais próprios, mesmo sem massa crítica suficiente para gerar uma vida sindical autónoma.

Há ainda casos, como nos call-centers, em que a fundação de um novo sindicato expressou o crescimento de um novo setor real do proletariado, subrepresentado sindicalmente. Mas há também experiências válidas em que novos setores profissionais se organizam através das estruturas existentes – veja-se os estafetas da Uber e da Glovo.

Aprender com a experiência

Não há, portanto, uma receita fixa para criar um novo sindicalismo. Isto apesar de a tradição socialista, já desde o tempo da IIIª Internacional, instar os militantes a integrarem as organizações sindicais maioritárias, abstendo-se de formar sindicatos “vermelhos”, radicais mais isolados. Quem confunde novo sindicalismo com novos sindicatos arrisca-se a cometer erros grandes; mas a falta de renovação e democratização do sindicalismo tradicional alimenta esta fragmentação. Cada caso é um caso. Contudo, a experiência recente permite traçar algumas conclusões provisórias. Vejamos:

1. Sindicalismo combativo não é sinónimo de novos sindicatos. Muitos dos novos sindicatos reproduzem os piores defeitos antigos; ao mesmo tempo, há exemplos de sindicalismo combativo e democrático no seio de organizações tradicionais.

2. O surgimento de vários novos sindicatos durante o período da chamada Geringonça não constitui, por si, o despontar de um sindicalismo alternativo por fora das centrais. Alguns destes sindicatos tentaram praticar um sindicalismo mais combativo que o da CGTP, outros fizeram o percurso oposto. Outros têm um percurso ambíguo. Há os que expressam realidades sindicais reais, outros apenas desejos e agendas particulares. O traço mais comum destas experiências (ainda que não de todas) é a tendência ao corporativismo e à fragmentação.

3. Mesmo quando a formação de novos sindicatos responde a necessidades reais, o sucesso é difícil. Se o essencial na luta sindical é a mobilização, a verdade é que as tarefas legais, administrativas e a gestão financeira são essenciais. E absorvem muito tempo e energia. Um coletivo sindical jovem corre o risco de ser esmagado por estas tarefas, faltando-lhe forças para o ativismo sindical. Cedendo assim a um certo burocratismo que, ao contrário do que se espera, nasce da falta, e não do excesso, de recursos.

Não há receitas mágicas e cada caso é um caso. Mas podemos tirar conclusões da experiência, recente e antiga: por algum motivo a palavra “união” é, em várias línguas, sinónimo de sindicato. Pois é ela que faz a força.

Sobre o/a autor(a)

Livreiro e ativista sindical
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