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Sim, são vergonhas

A partir de agora haverá quem lembre a Ventura que ele fez parte do partido que declarou que tinha como objetivo “empobrecer os portugueses”, momentos solenes em que o dito senhor não gritou “vergonha”.

Esvaziou-se a vaga de comiseração pela gafe do presidente do Parlamento, que explodira a propósito de uma boutade do deputado Ventura, alimentando conversas desencontradas sobre o episódio. É certo que o país depressa achou mais com que se entreter do que com a indignação encenada pelo partido do boutadista. No entanto, talvez este caso mereça mais discussão, pois os democratas demoraram a encontrar uma forma de responder ao fenómeno novo, um bolsominion no Parlamento. E, como tantos mostram um nervosismo à flor da pele, que faz as delícias do dito cujo, o excesso de Ferro Rodrigues, que confortou a alma de poucos e atrapalhou muitos, deve ser medido em relação a alternativas: e o que queremos mesmo dizer quando for de falar sobre os assuntos trazidos pelo senhor, e nem sempre é, mas alguma vez será?

Quando aqui escrevi sobre o assunto, argumentei que a primeira reação à eleição de Ventura foi a mais disparatada: numa semana, foram convocadas duas manifestações frente ao Parlamento e houve partidos em concorrência para ver qual mais depressa convocava a rua para exibir a sua indignação. Essa mania acabou depressa, até porque não apareceu ninguém, o povo é mais sábio do que tais dirigentes políticos assustados ou apressados em vestir-se com a etiqueta de campeão antifascista. Ficou depois algum silêncio, raramente interrompido até à explosão do presidente do Parlamento.

Na substância, esse caso é óbvio, dado que qualquer deputado pode e deve usar os termos que entender melhores para exprimir a sua posição. Pensar em transformar o Parlamento num clube de chá, de dedo mindinho espetado e de palavras mansas, seria um intuito condenado ao fracasso e, aliás, prejudicial à democracia, que duvido que alguém alimente. De facto, até se deve sublinhar que há vergonhas na nossa república, e não são poucas: escândalos de corrupção, incluindo os de destacados ministros do partido que foi o do Ventura ou o que levou a polícia ao seu próprio gabinete, ou as assinaturas falsas para legalizar um partido, logo o de Ventura, e muito mais.

Entretanto, quem primeiro respondeu com elegância e fulminante eficácia a Ventura foi António Costa, quando interpelado sobre a contratação de médicos. Escolheu o bom humor, elogiando a implausível conversão ao SNS do deputado que foi eleito com a promessa de encerrar todos os hospitais e despedir todos os médicos e enfermeiros. Depois, Pedro Filipe Soares arrasou o galhardo deputado lembrando a “vergonha” da lei sobre as subvenções vitalícias, incluindo a de um porta-voz do partido de Ventura, ou a “vergonha” de ter a polícia no seu gabinete durante a investigação de um caso de corrupção, o Tutti Fruti, que veremos onde vai parar. Chegamos, portanto, ao fim do silêncio e da impunidade. A partir de agora haverá quem lembre a Ventura, quando vier a talhe de foice, que ele fez parte do partido que declarou que tinha como objetivo “empobrecer os portugueses”, momentos solenes em que o dito senhor não gritou “vergonha” e que, de corrupção e compadrio, tem muito que esconder. É que a memória é a melhor razão.

Texto publicado a 19 de dezembro no jornal Expresso.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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