Nestes dias, em França, a História saiu às ruas. Não só a história de Nahel M, jovem francês de origem argelina, e dos seus dezassete anos de vida abruptamente terminados por um tiro à queima roupa da polícia francesa, mas igualmente a História do colonialismo francês em África - e particularmente na Argélia - e as suas reverberações nos dias de hoje. Para todos aqueles que insistem em anunciar que o colonialismo é um fenómeno morto e enterrado, pertencente aos livros de história e aos séculos passados, aqui está, mais uma vez, a prova em contrário: a colonialidade persiste, resiste e manifesta-se no racismo, violência, brutalidade policial e desigualdades sociais que atormentam as sociedades europeias.
A França foi dona de um dos maiores impérios coloniais da História. Em África, no início do século XX, dominava cerca de vinte países, somando-lhes ainda a Indochina (atualmente Cambodja, Laos e Vietname), quatro colónias na zona do Pacífico e outras no continente americano. A dominação colonial francesa da Argélia foi, desde o seu começo, particularmente sangrenta. No pós Segunda Guerra Mundial, depois de França se ter conseguido libertar do terror do nazismo e das suas perseguições raciais e políticas, continuará a aplicar na Argélia métodos brutais de violência racista contra o povo argelino, que vivia mergulhado na pobreza. Se é verdade que o revelar das atrocidades do Holocausto gerou ondas de choque e indignação pela população de todo o mundo, estas não foram suficientes para alterar a forma como os colonizadores europeus tratavam os povos africanos que viviam sob o jugo dos seus impérios. Logo em 1945, na cidade argelina de Sétif, na sequência de celebrações pela vitória aliada durante as quais se hastearam bandeiras argelinas, as forças francesas dispararam sobre os manifestantes. Pouco mais tarde, como forma de vingança por uma revolta do povo argelino, as forças francesas atacaram em força aldeias argelinas, com execuções sumárias, bombardeamentos e destruição de mesquitas. Dezenas de milhares de argelinos foram mortos. Entre 1954 e 1962 desenrolou-se a Guerra de Independência da Argélia, durante a qual as tropas francesas cometeram diversos massacres que chamaram a atenção do mundo e que levaram diversos intelectuais, como Aimé Césaire, a comparar a violência das tropas francesas à da ocupação nazi.
Nahel vivia em Nanterre, tinha dezassete anos, trabalhava a entregar encomendas enquanto estudava para ser eletricista. A 27 de junho de 2023, sessenta e um anos depois da independência argelina, foi assassinado durante uma operação stop da polícia francesa. Em plena luz do dia, foi morto com um tiro no peito pelo crime de ser um jovem de origem argelina num país estruturalmente racista. O racismo francês não reside somente na brutalidade policial do agente que assassinou Nahel mas, sobretudo, na resposta e reação que o governo e largas franjas da sociedade tiveram ao sucedido.
Emmanuel Macron tem, ao longo dos últimos anos, procurado arejar a sua imagem crescentemente impopular e autoritária com iniciativas aparentemente progressistas para lidar com o passado colonial francês. A 28 de novembro de 2017, numa visita oficial a Uagadugu, declarou que a França iria iniciar o processo de devolução do património cultural africano exposto nos museus franceses aos respetivos donos. Para isso, mandatou a historiadora Bénédicte Savoy e o escritor Felwine Sarr para elaborarem um relatório que desenhasse um programa de restituições de obras dos museus franceses aos respetivos países da África subsariana. Hoje, com o extenso relatório já elaborado, quase tudo continua por fazer. Alguns anos depois, o Presidente francês anunciou igualmente a criação de uma comissão franco-argelina de historiadores que estudassem o seu passado colonial. Esta comissão, liderada pelo historiador Benjamin Stora, sem surpresas, não chegou ainda a resultados satisfatórios. Aliás, o próprio historiador, num relatório que elaborou sobre a questão, descartou a necessidade de um pedido de desculpas por parte de França e reiterou a ideia de que os crimes de guerra franceses e argelinos teriam exatamente o mesmo peso.
Apesar de ter aberto portas relevantes, Macron não percorreu os caminhos que prometeu, procurando manter-se em cima do muro, conciliando atabalhoadamente as exigências do movimento antirracista com o status quo racista francês - de quem também depende eleitoralmente. Já em 2020, durante o pico dos protestos Black Lives Matter, Macron veio a público declarar que “la République n'effacera aucune trace ni aucun nom de son histoire. Elle n'oubliera aucune de ses œuvres. Elle ne déboulonnera pas de statues” [a República não apagará nenhum traço nem nenhum nome da sua história. Ela não esquecerá nenhuma das suas obras. Ela não deitará abaixo nenhuma estátua]. Com a morte de Nahel, a posição de Macron no importante debate sobre colonialidade e racismo que se tem desenrolado nos últimos anos ficou mais evidente que nunca. Face a um país em convulsão e revolta pelo assassinato brutal de um jovem pela polícia, o Presidente escolhe culpar as redes sociais e os videojogos pelos protestos, prender manifestantes indiscriminadamente, reforçar o apoio à polícia e ignorar avisos das Nações Unidas sobre racismo nas suas forças policiais.
O racismo e a colonialidade são um fenómeno tão radical e violento na sociedade francesa que, face a este assassinato, os sindicatos da polícia, em vez de se distanciarem das ações do seu colega, vieram a público chamar “selvagens” aos manifestantes. Ao mesmo tempo, uma iniciativa de crowdfunding para apoiar o polícia em questão, reuniu já 1.4 milhões de euros, enquanto que a de apoio aos pais de Nahel reuniu apenas um milhão.
A colonialidade vive na sociedade francesa, tal como na portuguesa, e é persistente em não ir embora. Enquanto não se tomarem ações corajosas, o racismo estrutural continuará a matar jovens e a remeter milhões à pobreza e à exclusão social. Até lá, continuaremos a dizer: sim, isto ainda é sobre colonialismo.
Artigo publicado em Gerador a 10 de julho de 2023