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Sim, é tempo de começar a abrir as escolas

A escola só funciona presencialmente e não há ensino envolvente que não seja na sala de aula. Quanto menor a idade, mais determinante é essa aprendizagem.

Um apelo público veio propor a abertura das escolas, a começar pelas dos mais pequenos, a partir de março. Foi assinado por professores de vários níveis de ensino, por pais e mães, por profissionais de saúde, até por alguns dos epidemiologistas ouvidos pelas autoridades como referência científica, e por outras pessoas que, como todas, sofrem este prolongamento da pandemia e respeitam as decisões das autoridades sanitárias. No entanto, o que mais as qualifica não é a profissão ou a ciência, é simplesmente procurarem responder às dificuldades com o bom senso. Este apelo deve ser ouvido.

Testes e rastreios

Com 4,4% da população com pelo menos uma dose da vacina e porventura com milhão ou milhão e meio de pessoas com anticorpos por contacto anterior com o vírus, ainda nem um quinto da população está protegida. Andamos longe da imunidade de grupo e nem sabemos quanto tempo nos protegem estas barreiras. Ou seja, as medidas de emergência continuarão enquanto forem precisas.

Por isso o Governo e os peritos têm sugerido o que se chamou de uma “nova estratégia”, que passaria por aumentar massiva e rapidamente a testagem de todos os contactos de pessoas infetadas, além de a dirigir a sectores vulneráveis, ou mesmo aumentando as provas aleatórias, sendo que esta resposta exige mais capacidade de rastreamento. É uma boa escolha, que permite mais eficácia da resposta sanitária e reduz, ao mesmo tempo, a pressão social do confinamento generalizado.

O problema desta nova estratégia é que foi anunciada antes de haver capacidade para a aplicar ou mesmo sem preparação técnica adequada. Se bem que estejam a ser feitos mais testes em Portugal do que em Espanha e França, nos momentos de necessidade nos meses anteriores testou-se mais do que depois do anúncio da nova abordagem: por 100 mil habitantes, fizeram-se, a 22 de novembro, 4,02 testes, a 23 de dezembro 4,05 e mesmo a 31 de dezembro chegou-se aos 2,89, subindo depois para 6,37 em 26 de janeiro. Mas a 18 de fevereiro o número reduzia-se a 2,87, ou cerca de 30 mil testes, quando já estivemos nos 70 mil por dia. Quanto ao recrutamento e treino de rastreadores, que devia ter sido multiplicado desde março passado, parece haver um atraso incompreensível. Ou seja, anunciou-se uma boa resposta, que não estava pronta nem ia ser executada de imediato.

A educação que falta

Esse atraso na generalização do rastreio e testes como meio de contenção da pandemia levará a que não se tomem logo no início de março as medidas que seriam já necessárias para as escolas. Mas espero que o Governo não ignore que estamos a perder tempo e que cada dia que passa é pior para a vida de centenas de milhares de crianças e jovens.

A escola só funciona presencialmente e não há ensino envolvente que não seja na sala de aula

A escola só funciona presencialmente e não há ensino envolvente que não seja na sala de aula. Quanto menor a idade, mais determinante é essa aprendizagem na comunidade escolar, e para estas crianças é o segundo ano letivo em que não sabem onde estão, desaprendendo a rotina escolar. Se foi preciso fechar as escolas, que, segundo todos os registos, não eram focos de infeção, foi por uma compreensível necessidade de dar um sinal de extrema gravidade a toda a sociedade, num contexto em que a incerteza ainda é grande sobre todos os riscos, mais do que por resposta a contaminações locais e certamente não por um projeto escolar. Assim, compreendo e aplaudo o esforço do sistema educativo por distribuir os atrasados computadores e por criar aulas que substituam tanto quanto possível o lugar da escola enquanto não houver alternativa, mas não se deve fantasiar sobre o significado pedagógico desse trabalho.

Nesse sentido, as sugestões daquele apelo para a abertura das escolas são certeiras: menor horário e mais diferenciado por anos letivos, vacinação de professores e funcionários, turmas mais pequenas. Para abrir os primeiros anos de escolaridade ainda em março.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 26 de fevereiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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