A 2 de Abril de 1976, na Cumieira, um estrondo ecoa por entre a chuva que caía e, por momentos, neste lugar de Vila Real, o escuro da noite é iluminado por um clarão. Horas antes, a centenas de quilómetros, a Assembleia Constituinte, eleita nas primeiras eleições livres do país, aprovara a versão final da Constituição da República Portuguesa.
Voltando à Cumieira, o estrondo que se sentiu foi de uma bomba que havia acabado de explodir, acionada à distância. Tinha sido colocada no carro do padre Maximino de Sousa, sendo que a explosão haveria de ceifar duas vidas: a do próprio Maximino e a de Maria de Lurdes. Ambos estiveram numa ação de alfabetização de trabalhadores, de onde regressavam. Não se tratou de um mero acidente. Foi o resultado do escalar da violência da extrema-direita que assolava o país.
Maximino, conhecido como padre Max, não era uma figura eclesiástica comum. Durante os anos da ditadura fascista, a Igreja Católica foi um instrumento essencial para o controlo da população e o incentivar do obscurantismo. Com o eclodir do 25 de Abril, a Igreja, associada a um conservadorismo exacerbado e à cumplicidade com o antigo regime, viu-se numa posição complexa. Muitos dos seus clérigos assumiram posições de continuidade com regime deposto, colocando-se ao seu serviço. No pós-Revolução, alguns destes indivíduos juntar-se-iam a movimentos reacionários e violentos, tendo como epítome o fascista MDLP, responsável por atos terroristas e uma rede bombista, a par de outros grupos como o ELP.
Max, por sua vez, representava, de certa forma, as contradições da Igreja. De esquerda, socialmente empenhado e um progressista, o padre Max era um incómodo e, até, uma afronta, ao conservadorismo reinante no Norte do país. Uma das suas principais preocupações, a par da justiça social, prendia-se com a educação do povo, dedicando-se à alfabetização das e dos trabalhadores, o que, para grupos de extrema-direita, era considerado uma ameaça.
Em Vila Real, Max, nas suas funções religiosas, trabalhava com grupos de jovens estudantes católicos (pertencentes à Juventude Escolar Católica), onde se integrava a Maria de Lurdes, procurando consciencializá-los para as desigualdades que os rodeavam e a necessidade de agir perante a situação dos outros.
Com essa preocupação, Max iria ser candidato, como independente, nas listas da UDP por Vila Real às primeiras eleições legislativas livres do país, algo que os movimentos da extrema-direita não perdoaram. Estes grupos, altamente financiados por industriais, tinham uma forte presença no Norte do país, estando envolvidos em atentados à bomba a sedes de partidos de esquerda, mas também em assaltos, espancamentos e assassinatos. Tendo consciência do perigo que o cercava, afirmou, um mês antes do seu assassinato, no congresso da UDP, que “se um elefante incomoda muita gente, um padre da UDP incomoda muito mais”.
Com uma investigação propositadamente morosa e um julgamento com muitos percalços, o assassinato do padre Max e da Maria de Lurdes foi um crime sem castigo. Ainda que o MDLP tenha sido imputado com a responsabilidade do crime, este haveria de ficar impune, uma vez que os réus foram absolvidos por falta de provas. O julgamento demonstrou a influência dos resquícios que o regime fascista ainda exortava, protegendo os criminosos de extrema-direita e figuras como industriais, militares ou membros da Igreja, de Spínola a Cónego Melo. Hoje, vemos antigos membros destes movimentos envolvidos na política, ansiosos por chegar ao poder e procurar regressar a um passado fascista. “É esta a democracia portuguesa”, tal como Max disse quando lhe perguntaram o que aconteceu na explosão da Cumieira.
Max e Maria de Lurdes representam o compromisso pela democracia popular. No efervescer do pós-Revolução, tendo em vista a construção de um Portugal novo, comprometeram-se com a entrega, o empenho e a solidariedade para com o povo, contra a exploração e pela sua dignidade. Max e Maria de Lurdes foram assassinados por isso mesmo, mas não os mataram – semearam-os. Mais próximo da doutrina de Jesus Cristo que a própria Igreja Católica, o padre Max, como outros, é uma bússola moral para qualquer cidadão que acredite que está nas nossas mãos construir um mundo melhor para todos.
Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 21 de maio de 2026