Ser mulher é caminhar com medo

porTatiana Heleno

08 de março 2026 - 12:00
PARTILHAR

Não é necessário ser-se mulher para ser feminista, basta ser humano e não aceitar viver num mundo onde metade da humanidade tem de pedir desculpa por existir.

Ser mulher é acordar cedo demais e deitar-se tarde demais. É estar sempre a meio caminho entre o cansaço e a esperança, é saber que, por mais que o mundo diga que avançou, o avanço é seletivo, desigual e cansativo.

Há liberdade, sim, mas é uma liberdade com cercas, com horários, com medo.

Dizem-nos: “Hoje as mulheres podem tudo”, mas esquecem-se de acrescentar:

“Desde que não incomodem, não gritem, não perturbem, não parem.”

Ser mulher é viver numa liberdade vigiada. Há ruas onde se anda depressa demais, não porque haja pressa, mas porque há medo. Há passos atrás que obrigam a calcular distâncias. Há trajetos que se escolhem pela iluminação pública. Há mensagens enviadas a dizer “cheguei bem” como se chegar a casa fosse um feito.

A liberdade masculina é caminhar. A liberdade feminina é sobreviver ao caminho.

O corpo das mulheres aprende cedo a transformar-se em mecanismo de defesa:

chaves entre os dedos, telemóvel pronto, localização partilhada…. Chamam a isto

prudência, mas é apenas o nome elegante para o medo que nos ensinaram a carregar.

 

Ser mulher é isto:

é ter medo nas situações banais;

é medir a roupa pelo grau de perigo;

é calcular trajetos como quem resolve equações de sobrevivência;

é viver sabendo que o corpo é sempre espaço público;

é vestir um vestido e sentir o olhar que o despe, o comentário que apalpa, o riso que humilha;

é ser chamada “querida” no trabalho e “galdéria” na rua;

é ser interrompida por um homem que só nos ouve para esperar o momento de nos corrigir;

é ser confundida com o papel que desempenhamos — mãe, esposa, filha, funcionária — e nunca com o ser humano que somos.

 

Ser mulher é viver em turnos rotativos — de dia trabalhamos, de noite justificamo-nos. É responder à pergunta “Está tudo bem?” com um sorriso ensaiado, porque a exaustão não tem boa imprensa.

Somos profissionais, mães, filhas, amigas, cuidadoras e o mundo continua a chamar a isto multitasking, nunca sobrecarga. Há sempre uma reunião marcada para depois do jantar, uma culpa à espera quando o corpo falha, um “obrigada por ajudares” quando só devíamos ouvir “obrigada por existires”.

Trabalhamos por dois, recebemos por metade e quando reclamamos, chamam-nos difíceis, mas difícil é continuar quando o sistema te esmaga, te exige e ainda te pede um sorriso.

Ser mulher é ser exaustão mascarada de resiliência. É nunca poder parar.

As mulheres que vieram antes de nós ergueram o mundo com mãos calejadas e sem voz. Foram operárias, costureiras, amas, mulheres de limpeza, mulheres de casa — essas que o país chamou de analfabetas, mas que sabiam tudo o que importava: sabiam criar, manter e sustentar. Foram elas que nos deram chão e é por elas que continuamos a caminhar mesmo que o caminho ainda esteja coberto de pedras.

 

Hoje dizem-nos que somos extremistas, mas extremismo é o que nos fazem.

Extremismo é ter de provar que o nosso corpo foi violado.

Extremismo é uma juíza perguntar que roupa vestíamos.

Extremismo é uma mulher receber menos porque pode engravidar.

Extremismo é não poder abortar, nem decidir o nosso próprio destino.

 

O feminismo não é uma guerra contra os homens. É uma guerra contra o silêncio, contra a indiferença, contra o medo. E não é necessário ser-se mulher para ser feminista, basta ser humano e não aceitar viver num mundo onde metade da humanidade tem de pedir desculpa por existir.

 

Hoje, dizem-nos que já somos livres, mas: 

chamam-nos oferecidas quando decidimos o que vestir e histéricas quando levantamos a voz;

chamam-nos fracas quando choramos e frias quando não o fazemos; 

chamam-nos radicais quando exigimos respeito e sensatas quando o perdemos; 

chamam-nos feministas como quem insulta, mas esquecem-se que se o podem fazer é porque nós fomos feministas antes deles/as nascerem.

 

Ser mulher é também decidir sobre a maternidade ou a ausência dela. Queremos ter filhos e somos julgadas, não queremos tê-los e somos questionadas.

Queremos ser mães e chamam-nos frágeis, não queremos e chamam-nos egoístas.

Queremos regressar ao trabalho e dizem que abandonámos o lar.

Queremos ficar em casa e dizem que desistimos do mundo.

 

A maternidade, quando desejada, devia ser celebração, mas o país transforma-a em castigo — salários cortados, carreiras estagnadas, olhares de desconfiança. E, ainda assim, as mulheres continuam. Continuam a gerar, a cuidar, a criar, mesmo quando já ninguém cuida delas.

 

Ser mulher é estar sempre no banco dos réus da moral pública, mesmo quando o único crime é viver.

Ser mulher é amar de forma política.

É amar o mundo o suficiente para o querer mudar.

É amar outras mulheres, até as que ainda não entenderam que a luta é por todas.

É escrever, marchar, votar, falar, chorar e recomeçar — sempre.

É ser solidária quando a sociedade tenta dividir-nos.

É continuar a dar voz mesmo quando a garganta já dói.

 

Queremos andar sozinhas e andamos, mas sem segurança.

Queremos viajar e viajamos, mas com medo.

Queremos liberdade e temos, mas vigiada.

Queremos amor e encontramos, mas às vezes ele vem com controlo.

Queremos justiça, mas ainda estamos à espera dela.

 

Ser mulher é sentir-se simultaneamente gigante e invisível. É ser vista por todos e ouvida por poucos. É continuar a existir no meio de discursos que nos querem dóceis, nas entrelinhas das leis, que nos querem discretas e nos olhos de quem ainda pensa que o nosso lugar é onde não incomodamos. Mas nós incomodamos e é por isso que o mundo ainda se move, porque a mulher não é o futuro — é o presente que grita.

Mesmo quando a noite é fria e os passos atrás de nós soam altos, continuamos a caminhar, porque aprendemos que o medo não nos salva — apenas o caminho o faz. E o caminho somos nós: as que já foram, as que são, as que virão.

Ser mulher é ser amor e revolução na mesma respiração. É cair e levantar-se com o mesmo gesto. É ser a ponte entre o que o mundo ainda é e o que um dia será.

Se me perguntarem o que é, afinal, ser mulher — direi que é resistir, mas também é escrever, amar, existir e não pedir desculpa por isso.

Tatiana Heleno
Sobre o/a autor(a)

Tatiana Heleno

Cardiopneumologista e Neurofisiologista. Ativista pelos direitos humanos.
Termos relacionados: