Cinquenta anos depois, lembramos a vida e lembramos a morte do Padre Max e de Maria de Lurdes. Lembramos as suas vidas e quanto nelas aprendemos de coragem e de compromisso militante. Lembramos a sua morte e quanto ela desafia a uma luta pela memória como frente central da luta política no nosso tempo.
Aquilo que um país escolhe lembrar – e aquilo que decide esquecer – define os limites do que esse país fixa como o que foi e o que é e sobre o que pode imaginar no presente para o futuro. A memória define o espaço da política. A memória coletiva nunca é um simples exercício de evocação: é sempre um ato de escolha que reconhece, que silencia, que disputa poder. Quem vence a batalha pela memória conquista assim a capacidade de definir o que é “normal”, o que é “excessivo” e o que é “impossível” nas lutas de hoje. É por isso que esta é uma luta política essencial.
Assumirmos esse lugar fundamental da luta pela memória é assumirmos que não há neutralidade na maneira como o país conta a sua história e é assumirmos que o futuro que queremos construir exige, sem medo, a verdade inteira sobre o passado.
Quando se apresenta o salazarismo e o marcelismo como uma ditadura “branda”, o que se está a fazer é a normalizar o fascismo, a repressão, a censura, a exploração exacerbada.
Quando se apresenta o colonialismo como “encontro de culturas” ou “aventura marítima”, apagam-se o trabalho forçado, os massacres, o racismo institucional que estruturou o império e que ainda hoje se manifesta na segregação na habitação, nas escolas, nas prisões, na violência policial contra pessoas negras e ciganas.
Quando se apresenta a revolução como um momento de desvario e violência, apaga-se o que foi a violência bombista da extrema-direita e apaga-se o que foi o processo revolucionário sem o qual não teríamos a democracia que hoje temos.
Lembramos Max e Maria de Lurdes porque nessa lembrança dizemos ao país que a democracia em Portugal tem a amplitude que tem porque a revolução a construiu assim, nessa lembrança dizemos ao país que a revolução foi feita da entrega de homens e de mulheres que não quiseram promoções nem reconhecimento social, mas apenas uma transformação real e profunda da sociedade, nessa lembrança dizemos ao país que não aceitamos que se reescreva a história para fazer vingar a ideia de que a revolução trazia consigo o vírus da violência política. Nós sabemos quem matou o Padre Max e Maria de Lurdes, nós sabemos que, matando-os, quiseram intimidar quem se entregava pela transformação revolucionária de um país injusto e desigual. Lembrá-los é combater essa estratégia. Lembrá-los é dizermos algo muito simples: não vos mataram, semearam-vos.
O Padre Max e a Maria de Lurdes foram mortos à bomba no preciso dia em que, a 399 quilómetros de distância, os deputados constituintes aprovaram a Constituição da República Portuguesa. E esta coincidência ajuda-nos a realçar um traço de continuidade entre esse momento e o tempo que estamos a viver. Do 25 de Abril saiu uma extrema-direita que viveu disfarçada, mas que, nas suas várias configurações ao longo das últimas décadas, sempre abjurou a Constituição. Porque a extrema-direita, disfarçada durante muito tempo e agora sem máscaras, sempre esteve do lado da normalização da violência. Seja da violência bombista, que é o outro nome de movimentos como o MDLP. Seja da violência social, que é o outro nome da desigualdade.
Tenho a firme convicção de que o que os mandantes do assassinato de Maximino de Sousa não lhe perdoaram não foi ele ser de esquerda, foi o facto de ele ser católico e padre e de, como católico e padre, ter um assumido compromisso militante na esquerda revolucionária. Contestar o acantonamento dos católicos no campo conservador, fazê-lo com coerência e com determinação foi algo que exasperou os saudosistas de Salazar e da quietude católica diante do fascismo. Max escolheu essa margem de certa maneira que foi estar com o povo e dar-lhe poder e esperança, em vez de domesticar a força do povo com medos de juízo final e ameaças de inferno. Esse desafio foi insuportável para os guardiões das hierarquias – políticas, económicas, sociais, eclesiais – de sempre.
O tempo que estamos a viver agora traz esta memória à superfície. Porque, em Portugal e no mundo inteiro, a estratégia da extrema-direita passa de novo por instrumentalizar o cristianismo, de forma aberta e agressiva, e torná-lo em emblema de um programa político nos antípodas das referências centrais do Evangelho: a solidariedade concreta com os pobres, o acolhimento do estrangeiro, a libertação dos oprimidos e a paz desarmada e desarmante de que fala Leão XIV.
Cristãos e socialistas precisam uns dos outros para um combate eficaz contra a força política e ideológica da aliança entre a extrema-direita e o cristianismo reacionário
Estou sinceramente convencido de que a força desta aliança entre a Internacional Reacionária e o integralismo cristão não poderá ser vencida sem que as forças da esquerda política e do cristianismo progressista se juntem. Precisamos de convergências práticas e de empenhamento social e político articulador entre a cristã opção preferencial pelos pobres e a socialista luta pela emancipação das massas trabalhadoras. Cristãos e socialistas precisam uns dos outros para um combate eficaz contra a força política e ideológica da aliança entre a extrema-direita e o cristianismo reacionário.
Estou certo de que o Padre Max vibraria com a condenação do capitalismo pelo Papa Francisco e se associaria a estas palavras de Leão XIV: “Ninguém pode ser cristão hoje e escapar ao ‘clamor dos pobres’ e à luta pela justiça. O empobrecimento de milhões de pessoas é um verdadeiro ‘sacramento’ do pecado no mundo.” O testemunho de vida do Padre Max – que motivou o seu assassinato – inscreve-o num grande movimento que se exprime hoje na mobilização de cristãos, em todo o mundo, contra a escalada belicista, na resistência ativa de cristãos à discriminação e à violência contra os imigrantes, no envolvimento de cristãos no movimento de solidariedade com a Palestina, ou na presença militante de cristãos em campanhas contra o aumento dos gastos militares.
O que estas mobilizações nos ensinam é que a luta pela paz, a luta pelos direitos de quem trabalha e a luta pela justiça climática são lutas irmãs e que, em todas elas, crentes e não crentes estão convocados a procurar convergências a partir de um diálogo que os complete reciprocamente e aprendendo sempre com a coragem dos que não vergaram perante as conveniências.
O Padre Max e Maria de Lurdes eram dessa fibra. Foram assassinados por serem dessa fibra. Lembrá-los cinquenta anos depois do seu assassinato é um gesto de compromisso contra a ofensiva da desmemória. Não os esquecemos e não esquecemos o que, no passado, fizeram pelo nosso futuro.
Texto adaptado da intervenção na Sessão de Homenagem nos 50 anos do assassinato do Padre Max e de Maria de Lurdes, organizada pelo Bloco de Esquerda (Porto, 16.5.26)