Hoje mesmo num directo a partir de Bruxelas a actual Ministra da Agricultura falava da seca grave que afecta Portugal e dos apoios que se podem esperar da Europa. É como um cabresto. Sem alternativa, pesa e dói. Lamentavelmente lá vamos de novo estender a mão e pedir ajuda, ou seja, pedir dinheiro. A seca existe sim, só mesmo quem andar muito distraído é que pode falar em relativizar. As imagens das barragens do Lindoso ou do Castelo de Bode não precisam de legendas de tão autoexplicativas que são. Num caso, com a antiga aldeia outrora submersa agora à vista e motivo para turismo e matar saudades; noutro caso, com os barcos em terra seca e gretada. Os exemplos multiplicam-se e os sucessivos governos sem fazerem o suficiente. Não para que chova porque a tanto não se pode almejar mas para que ao longo dos anos implementem programas de retenção da pouca água que cai. Quando já está tudo ressequido, lá vem o coro habitual. Não há, não se fez, não se imaginou que pudesse acontecer, podíamos lá adivinhar. Ninguém lhes explicou que a ciência é exacta, não é magia.
Precisava de ser assim? Quando é que se acredita numa coisa que dá pelo nome de planeamento? Ah, bom, nada se altera entre duas luas mas é boa ideia começar a pensar e agir. Que não vai com a nossa maneira de ser, desculpam-se. Com governos não maioritários, conseguir o apoio do Parlamento era indispensável; agora, entregues a eles próprios, Parlamento para que te quero! Relativiza-te aqui, conforma-te acolá, vem aí o tempo das cerejas e logo logo, o verão, dias grandes, noites magníficas. E tanto mar, tanta água, onde está a dessalinização?
Podemos relativizar outras frentes da nossa sociedade. Por exemplo, o SNS que sempre vai funcionando segundo aquele bom princípio de que vai servindo os pobres enquanto os ricos dão de frosques e procuram cura para os seus males no privado. Ou o caso dos professores que se desunham para cumprir a sua função mas que nunca receberam preparação (ou receberam insuficiente) para o ensino à distância com recurso às novas tecnologias, enquanto as crianças lá se vão ajeitando, mais as ricas do que as pobres. Ou a sociedade digital que provoca a maior das confusões porque ter um monitor à frente do nariz não faz do funcionário um perito em tecnologias da informação. Ou a satisfação por ter diminuído o abandono escolar mas sem parar para reflectir sobre a baixíssima taxa de leitura entre a população portuguesa sobretudo os jovens que qualquer dia conhecerão tão bem a origem de um livro como do bacalhau que têm no prato. Ou o sucesso do relançamento imobiliário que deixa na rua ou em habitação imprópria desse nome milhares de portugueses. Bem vistas as coisas, tudo é relativo embora dependa do lado da barricada que escolhemos.
Quem relativizou o problema da seca é, consta que sim, um forte candidato a Ministro da Agricultura que trazendo no seu portefólio esta filosofia relativizadora se torna uma ameaça pública. A soberba vai-se assim manifestando, colorindo a maioria absoluta e dando o tom para o que aí vem. Relativizar ou conformar, aceitar o destino, uma atitude que cheira a mofo. Sacudamos este mofo, porque o melhor mesmo é não relativizar a nossa intervenção social, organizando-a de forma sustentada.