Está aqui

Segunda resposta a um burguês mesmo muito irritado

Vasco Pulido Valente ficou irritado porque respondi à sua crónica no Público. VPV não gosta de ser contradito. Espalhou por isso a sua irritação em letra de forma, o que já é dizer pouco.

Não é novidade e é mesmo uma obsessão. Nos últimos três anos, VPV referiu-se ao Bloco por 46 vezes no Público. Sempre de forma primorosa. Quando o Bloco colou um cartaz com Bush, Blair, Aznar e Barroso, "eles mentem, eles perdem", VPV ficou furioso: pela "cabecinha tonta do sr. Louçã, o BE também anuncia a Portugal, à Europa e ao mundo o castigo (presumo que divino) de Bush e Blair", com um "cartaz que demonstra a puerilidade da congregação". O Bloco é "um grupinho de amigos" (30 Abril 2004); pouco depois, já é um "grupo excursionista" (1 de Maio 2005).

O Bloco é, para VPV, o “bloco”, porque vai desaparecer, o que explica a minuscúla enfastiada com estes oito anos que a coisa já leva. De qualquer modo, VPV está muito seguro de que o Bloco “não tem destino” (19 Agosto 2006) e, para que não fiquem dúvidas, também “não tem destino” uns meses mais tarde (4 Novembro 2006).

Quando o Bloco sobe nas sondagens, VPV retorce-se: “O Bloco lá se aguentou (e até melhorou um bocadinho) provavelmente porque o velho trio (Rosas, Louçã e Portas) desapareceu da TV (ou quase) e deixou de incomodar a pátria com a sua estridência e a sua cegueira” (27 Janeiro 2007).

Aconteça o que acontecer, VPV tem fixações: não gosta de como se vestem os deputados do Bloco, e vai repetindo a sua irritação (28 Janeiro 2005, 1 Maio de 2005, 12 Agosto de 2007). Irrita-o que algumas pessoas possam apoiar ou votar no Bloco, pela “completa inconsequência do gesto” (12 Agosto 2007). Como eu o percebo.

VPV é um cronista. Já foi governante e deputado da direita, acabou cronista. Por isso, precisa de tema e uma obsessão vale como qualquer outra. Precisa de ser tornitruante, porque é disso que gostam os directores. Desejo-lhe as melhores felicidades na sua vida de cronista irritado e estou certo de que os neo-conservadores que fazem lei na imprensa acolhem com entusiasmo as suas diatribes anti-Bloco.

O problema é que VPV não cuida de confirmar as suas predições. São sempre categóricas e muito claras. Mas revelam-se erradas. Sobre o Bloco, enganou-se em tudo o que eram as suas análises, apesar de tão definitivas.

Primeira análise e predição: o Bloco só existe porque Guterres, à frente do PS, era um conservador e o povo de esquerda estava farto dele, e portanto sem o alibi Guterres vai desaparecer (29 Fevereiro 2004). Errado. Os factos são indesmentíveis. O Bloco elegeu 2 deputados com Guterres e 3 quando ele saiu; elegeu 8 quando a direita foi derrotada e Sócrates ganhou com maioria absoluta. O Bloco cresceu com o PS dirigido pelo católico Guterres, cresceu muito mais com o PS dirigido pelo liberal Sócrates.

Segunda predição: o Bloco vai entrar no PS, “com um pequeno esforço, o Bloco acaba concerteza por se transformar num PS em miniatura e por se aliar com ele” (1 Maio 2005). Já passam anos, e o Bloco tem sido uma força de oposição, como era o seu compromisso eleitoral. E chega por isso a maior irritação de VPV, de que me declaro culpado – foi ter-lhe respondido que a diferença de programa é tão acentuada entre o Bloco e o PS que é grotesca a ideia de qualquer forma de coligação em 2009. Pelo contrário, o objectivo do Bloco é destruir a hegemonia que o PS tem no eleitorado e na massa popular da esquerda. E criar assim um pólo para protagonizar e fazer vencer políticas alternativas à desagregação dos serviços públicos, que é a Bíblia de Sócrates.

É pena, meu caro VPV, mas enganou-se mais uma vez. O PS e as suas políticas agressivamente liberais podem certamente contar consigo, mas não podem contar comigo. Lamento a franqueza, mas afinal estamos em campos opostos.

Leia também:

Resposta a um burguês enfastiado

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
(...)