A mais de um mês de começar o verão, 80% do país já está sob seca. Quase um terço, em seca severa, mais do que a parte (22%) ainda não atingida. Este cenário acumula com a forte seca do ano passado e arrisca-se a piorar, dado não haver perspetiva de alívio (pelo menos) nos próximos meses. O tema só não é tratado como uma emergência, porque a água ainda não falta nem nas torneiras dos ministérios, nem na máquina (im)produtiva que a suga sem parar na agricultura intensiva, na monocultura do turismo, na produção industrial.
A seca tem assinatura política: lembram-se Assunção Cristas, em 2012, remeter o problema para uma questão de fé? Ou de Matos Fernandes, Ministro do Ambiente no passado governo, dizer que não há problema, porque a água para consumo estava garantida por mais dois anos? (Um já passou e não se adivinha milagre para o próximo.) Diríamos que o pensamento mágico, o autoengano, é a forma como os governantes vêm abordando o problema — ora em versão laica, ora em modo Cristas. Mas não: eles são parte do problema. Foi nesta década que se continuou a expandir a agricultura intensiva, nomeadamente as estufas, o abacate e o olival, sugadores de águas e inimigos do solo — colhidos os lucros chorudos e rápidos, o risco é esta agricultura deixar só terras áridas. Foi nesta década que o tripé do turismo de luxo, especulação e precariedade, com as suas piscinas e campos de golfe, se aprofundou — agora é a costa de Grândola, na zona de Melides, que está sob ataque, com megaprojetos dos grupos Sonae e Zara que destruirão as dunas e sugarão recursos hídricos. Mesmo outros projetos ditos verdes, como a produção de hidrogénio para exportação e a extração e refinação de lítio, que com orgulho cínico ou cego o governo tem anunciado, são grandes sugadores de água localizados em regiões em grande stress hídrico.
A crise hídrica já está aí
O litoral alentejano, por exemplo, já sofre: na barragem de Santa Clara, das poucas que não chegou a recuperar os níveis de enchimento no último inverno, 90% da água vai para agricultura intensiva e apenas 6% para abastecimento público. Os grandes produtores alimentam-se dos recursos naturais e humanos, nomeadamente a ultraexploração de trabalhadores migrantes, num círculo vicioso onde não faltam as suspeitas de irregularidades na gestão da água em prol do «lobby dos frutos vermelhos», como denunciaram movimentos cidadãos na região. Tudo se intersecta nesta crise ecológica: o extrativismo dos solos e do trabalho, o tandem turismo-especulação, os compadrios, a incompetência, o esquecimento do interior.
Na bacia do Sado, há casos em que a produção de arroz já se vê ameaçada e a forragem, para o gado, não é produtiva o suficiente, sendo a proibitiva importação a alternativa disponível. Até a produção de cortiça se vê afetada.
Mais haveria a dizer sobre esta crise anunciada. Bastaria lembrar que a Comissão Permanente (ou intermitente?) de Proteção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca reuniu 13 vezes em seis anos; e que o Plano Nacional para o Uso Eficiente de Água de 2012-2020 foi abandonado em 2015 e até agora não foi atualizado. Na frente florestal, também em alerta por causa da seca, pouco ou nada se tem feito — os parcos guardas-florestais existentes, por exemplo, estão há muito em luta pela atualização das carreiras, sem resposta adequada. É simetricamente nulo o respeito tido a quem trabalha, aos territórios e ao planeta.
Construir movimento: a crise climática é aqui
Esta é, portanto, uma fronteira da luta climática e social. Aqui se une o futuro — um Planeta a arder pela emissão contínua de gases de efeito-estufa — e o presente, em que pessoas e territórios sofrem já com os efeitos do aquecimento global enquanto grandes grupos capitalistas tudo sugam. Esta intersecção exige políticas contra a crise climática — o fim rápido dos combustíveis fósseis, em vez da expansão que o governo permite, por exemplo, com o terminal de gás em Sines, agora aumentado. Mas não se trata apenas de evitar a catástrofe futura, mas também de proteger os mais expostos a uma crise que já aqui está. Falta, pois, a mitigação dos seus efeitos da seca e aquecimento presentes — que passará por uma gestão dos recursos hídricos com participação democrática das comunidades, priorizando agricultura familiar e sustentável e o consumo das populações. Se não atacarmos centralmente o problema, enfrentado os grandes negócios poluentes e extrativistas — na agricultura, na energia, no turismo — a desertificação do país é certa e os problemas que hoje se vivem no interior chegarão às cidades, como já aconteceu em grandes metrópoles como S. Paulo e a Cidade do Cabo em anos recentes.
A luta é possível e necessária e pode unir as populações, muitas vezes estranhas ao discurso climático centrado nas grandes cidades, às estudantes que tem protagonizado as lutas pelo clima, juntando a quem vive do seu trabalho e quer um modelo económico que não viva da superexploração, do extrativismo e da precariedade. Ainda que não façam manchetes, movimentos sociais nas várias regiões já têm estado na luta por uma gestão justa dos recursos hídricos. Agora há que expandir e unir. Desta vez, a linha da frente da luta por Justiça Climática está aqui, não é longínqua no tempo nem no espaço. Social e ecológico, urbano e rural, proletário e camponês, mais e menos jovem, muitos rios de combate aqui podem desaguar. É hora de construir movimento.