Se pensava que o horror tem limite

porFrancisco Louçã

26 de novembro 2023 - 17:27
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O primeiro-ministro israelita convoca a autoridade religiosa para justificar a morte ou expulsão do povo palestiniano, o que a selvajaria não alcançou nem em Guernica, nem em Mariupol, nem em Alepo.

A imagem mais célebre sobre o massacre de Guernica é a gigantesca tela, aqui reproduzida, que Picasso pintou nos dois meses seguintes ao bombardeamento que provocou 1660 mortos naquela cidade basca, em 1937. As imagens mais conhecidas da devastação de Mariupol ou de Alepo, no nosso tempo, são fotografias panorâmicas tiradas à distância, algumas aéreas, e testemunham o deserto humano nos prédios destroçados. São duas formas de retrato da barbárie e, delas, o grito de Picasso é a expressão mais intensa do desespero. Cada guerra tem a sua história, mas guerra é isto: choque e pavor, para lembrar o termo com que os generais norte-americanos designaram a sua estratégia para o Afeganistão e Iraque, dois conflitos que, aliás, perderam. É o que se está a viver em Gaza, com a particularidade sinistra de ser um enclave onde a população bombardeada está encurralada pelos muros de uma prisão.

Que não sobreviva uma criança ou um bebé

Num discurso dos últimos dias, Netanyahu incitou os seus soldados a procederem segundo o princípio bíblico da vingança contra a tribo rival de Amaleque, fundada por um trineto de Abraão. A referência tem sido tão repetida pelas correntes sionistas de extrema-direita para que não fosse necessária uma explicação sobre a passagem do Livro dos Reinados, chamado na Bíblia hebraica Livro de Samuel, que determina ao rei Saul o extermínio do inimigo: “E não manterás vivo nada que lhe pertença. E destruí-lo-ás por completo e amaldiçoá-lo-ás a ele e a tudo o que lhe pertence; e não pouparás nada dele; e matarás todos, desde homem a mulher, desde criança a bebé de peito, e desde novilho até ovelha, e desde camelo até burro.” Segundo narra Samuel, assim teria acontecido, sendo assassinada toda a população, exceto o seu rei, Agag, levado à presença do deus e só então executado (a descrição deste episódio está em 1 Sam 15:3, 32, cito a tradução de Frederico Lourenço). Os intérpretes bíblicos descrevem uma longa rivalidade entre israelitas e amalequitas, que viria dos tempos de Moisés, então instruído para destruir aquela gente, e que só seria concluída pelo exército de Saul. O profeta Samuel continuou a história escrevendo que, a partir de então, por ter querido pilhar algum do gado do povo massacrado, Saul passou a ser ignorado pelo seu deus, uma parte da parábola que Netanyahu se escusou a comentar.

O falhanço tem 30 anos, o tempo das garantias dos Acordos de Oslo, nunca cumpridos. Não há Estado Palestiniano

Se perguntar qual a razão para que, entre os 23 mil versos da Bíblia hebraica, o Antigo Testamento, o primeiro-ministro israelita cite aquelas passagens tão cruéis, terá a explicação para as suas ordens nesta guerra, que nenhuma evocação da história religiosa permite justificar: trata-se de destruir a população de Gaza. Netanyahu convoca a autoridade religiosa para justificar a morte ou expulsão daquele povo, o que a selvajaria não alcançou nem em Guernica, nem em Mariupol, nem em Alepo.

Que viva a morte

Os membros do Governo de Telavive, agora reforçados pelo apoio de uma parte da oposição, usam os mesmos termos. O ministro da Herança sugeriu o uso da bomba nuclear, que curiosamente Israel nunca reconheceu oficialmente que possuísse, ou a expulsão daquele povo para a Irlanda (é de supor que a escolha se deve ao facto de a Irlanda ter criticado o genocídio) ou para algum deserto; o ministro das Finanças garante que Gaza nunca será independente; o ministro da Agricultura gaba-se da imposição de uma segunda Nakba, o nome que tomou o êxodo palestiniano depois da guerra de 1948, opção que é apresentada num documento revelado pelo Ministério da Inteligência, e um deputado do Likud, o partido de Netanyahu, escreveu com um antigo vice-chefe dos serviços secretos, num jornal norte-americano, que se devia começar a expulsão da população para “países do mundo [que] aceitem um número limitado de famílias de Gaza que expressem o desejo de se relocalizar”. Uma fórmula delicada nos dias em que um hospital é ocupado pelo exército invasor. Em todo o caso, o Governo israelita não deixa qualquer dúvida, trata-se, portanto, de começar a expulsar dois milhões de palestinianos daquele território, impondo a paz dos cemitérios. Que viva a morte, como gritavam os fascistas de Franco antes e depois de Guernica.

Esta escolha é apoiada pelas sucessivas declarações da diplomacia norte-americana e europeia, chamando-lhe “direito à defesa”, o que constitui uma autorização irrestrita a bombardear ou ocupar hospitais ou a destruir o território, provocando milhares de mortes de crianças, entre tantas outras vítimas. Borrell, o responsável pela política externa da União Europeia, já se mostrou horrorizado pelos crimes de guerra que têm sido cometidos, se bem que mantenha a duplicidade do discurso sobre uma autodeterminação que se recusa a apoiar. Obama mostrou-se arrependido não se sabe bem de quê, e nenhum desses discursos muda a realidade da chacina nem se propõe interrompê-la. O facto é que o falhanço tem 30 anos, o tempo das garantias dos Acordos de Oslo, nunca cumpridos. Não há Estado Palestiniano e as autoridades políticas internacionais, com a única exceção de Guterres, querem enterrar essa promessa nos escombros de Gaza e nos refúgios de uma Cisjordânia acossada pela guerrilha dos colonos. Estamos a assistir à comprovação de que o horror não tem limites.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 17 de novembro de 2023

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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