Há algo de profundamente errado num país onde uma mãe precisa de provar, com atestado médico, que o seu bebé ainda precisa dela.
É o velho truque: disfarçar cortes com palavras como “revisão”, “ajuste”, “eficiência”, “tem que se começar por algum lado”, “é preciso pensar nos empregadores”. Mas nunca nos empregados.
A verdade é que isto é um ataque frontal a quem cuida. Às famílias. Às políticas de natalidade.
A lógica é poupar à custa de quem garante que este país rode. Transformar direitos em privilégios, conquistas em exceções. Tornar a dignidade parental num luxo.
O regresso ao trabalho é, muitas vezes, necessário, mas saber que temos direito às horas de amamentação é o que nos permite não desabar completamente. É o que nos dá ânimo para voltar. Estamos a falar de mães que regressam ao trabalho com o corpo ainda dorido, o sono em fragmentos e o coração partido. Exigir um atestado médico para comprovar que o bebé ainda precisa da mãe como se fosse necessário um parecer clínico para legitimar o amor, o cansaço, o leite, o colo. Como se uma mãe fosse uma suspeita a quem é preciso pedir provas.
E isto não é gestão, é crueldade institucional. Mais do que leite, os filhos precisam do calor da presença.
“Ora, as nossas mães também conseguiram”, dizem alguns. Pois conseguiram. E as nossas avós começaram a trabalhar aos seis anos. É essa a bitola? Ou queremos falar de progresso? Porque progresso é reconhecer que a dedicação parental de hoje é mais consciente, mais exigente, mais ativa. E por isso exige estruturas que acompanhem essa evolução.
Nos países nórdicos, o cuidado parental é um pilar, não um peso. Na Suécia, os pais têm 480 dias de licença partilhada. Na Noruega, há semanas obrigatórias para cada progenitor e apoio até 80 por cento do salário. Não é só uma questão de bem-estar familiar. É visão de futuro. É entender que famílias seguras, respeitadas e protegidas constroem sociedades mais fortes.
Portugal já foi apontado como exemplo na OCDE pelas suas políticas de apoio à parentalidade. Hoje, há um esforço deliberado para se perder esse estatuto
Portugal já foi apontado como exemplo na OCDE pelas suas políticas de apoio à parentalidade. Hoje, há um esforço deliberado para se perder esse estatuto.
Querem transformar um direito automático nos primeiros 12 meses de vida do bebé numa corrida burocrática a um atestado médico. E aqui entra a questão central: quem beneficia com este retrocesso? Perdem as mães. Perdem os pais. Perdem os bebés. Perde a sociedade. Sabemos muito bem quem fica a ganhar. Isto não é só teoria. É vida real.
Mães cansadas, pais invisibilizados, bebés a crescerem sem presença segura e sustentada. É o Estado a dizer: “Cuidar? Só com justificação.” Esta não é uma conversa académica. É sobre mães que choram no carro antes de entrar no trabalho. É sobre pais que não pedem dias porque são vistos como fracos. É sobre famílias esmagadas entre o ideal e o possível. Não é uma reestruturação. É um recuo. É uma forma de mascarar cortes com retórica eficiente.
Se os bebés votassem, a história seria outra. Mas como só choram, choramos nós com eles.
Artigo publicado em Publico P3 a 31 de julho de 2025