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Se o problema é a especulação, corte-se o salário

O momento Lagarde é este: reduzir a procura por via do aumento dos juros e consolidar a recessão com a redução dos salários reais. A inflação é persistente.

Cada banqueiro central procura o seu momento mágico. Hamilton teve o seu momento “dólar”, Draghi teve o seu “custe o que custar” de 2012 e agora Lagarde procura o seu dia. Já tem a frase retumbante, “os nossos piores inimigos não são circunstâncias beligerantes, mas espíritos vacilantes”, já tem a política, aumentar os juros sem amanhã, falta-lhe o reconhecimento. E é pouco provável que o alcance, dado que nos está a propor agravar a recessão, oferecendo para isso a mais espantosa justificação para a repetição da receita que teve sempre o mesmo efeito desastroso. No entanto, nas entrelinhas do seu discurso está todo o mapa da prepotência social que esta recessão agrava, e isso deve ser notado.

Diz Lagarde

A presidente do BCE explicou em Sintra que estamos na “segunda fase” do processo inflacionista. Modéstia sua, batizar isto como “segunda fase” é o modo delicado de aceitar que o BCE errou ao garantir que a inflação seria “temporária” — o que foi repetido pelo nosso Governo, para justificar o corte real nos salários — e de aceitar que há um problema estrutural.

Ora, “numa situação como esta, a reação natural de qualquer agente económico é tentar transmitir os aumentos de preços a outros intervenientes na economia”, disse ela. A expressão “agente económico” é de uma maravilhosa ambiguidade: quem é o tal agente? E como “transmite os aumentos de preços”? Não é o consumidor, que não vai revender mais caro as batatas que comprou no mercado, nem o trabalhador, que não vai cobrar mais de salário no fim do mês. O “agente” é a empresa, que determina o preço do seu produto. Lagarde reconhece-o: “A primeira fase [da inflação] foi liderada pelas empresas, que reagiram à subida acentuada dos custos dos fatores de produção, defendendo as suas margens e transmitindo os aumentos de custos aos consumidores.” Na verdade, aumentaram as suas margens de lucro, não havendo hoje — salvo em alguns sectores delimitados — uma justificação para a pressão inflacionista do lado dos preços das matérias-primas e produtos intermédios (um inquérito S&P Global a 27 mil empresas, publicado pela “The Economist”, indica que esses preços estão agora ao nível anterior à pandemia). Ou seja, é pura especulação, “liderada pelas empresas”.

Persistirão medidas que farão durar a estagflação. E os causadores desta recessão depois darão lições de democracia

Prossegue Lagarde. Se a inflação é causada por empresas que ampliam as suas margens, qual é a solução? Obviamente, baixar os salários. E a essa recomendação se dedica o BCE (quem disse que só lhe competia a política monetária?), embora aceite que “os trabalhadores ficaram, até à data, a perder com o choque inflacionista [da primeira fase], tendo sofrido grandes decréscimos dos salários reais”. Aqui está um ponto de partida realista, os trabalhadores perderam com a especulação e a inflação que gerou e respondem, “o que está a desencadear um processo sustentado de ‘convergência em alta’ dos salários, com os trabalhadores a tentarem recuperar perdas”. Ora, Lagarde tem uma recomendação a fazer sobre esta tentativa de “recuperar perdas”: não pode ser, provocaria inflação (que, recorde-se, é criada pela especulação empresarial), e “temos de assegurar que as expectativas de inflação permanecem ancoradas, perante o desenrolar do processo de convergência em alta dos salários”. Expectativas ancoradas quer dizer, em BCÊs, que os salários têm de continuar a perder valor real.

Dizem os factos

Assim, o momento Lagarde é este: reduzir a procura por via do aumento dos juros e consolidar a recessão com a redução dos salários reais. A inflação é persistente: em 2022 foi de 9,1% nos EUA e 10,6% na zona euro; em dados homólogos de maio deste ano era na Grã-Bretanha 8,7% e, excluindo alimentos e energia, chegavam nos EUA a 5,3%. Em cadeia, os preços subiram cerca de 15% neste ano e meio. E o BCE vai portanto agravar a sua política: “Perante um processo inflacionista mais persistente, precisamos de uma política mais persistente. Uma política que não só produza um aperto suficiente agora, mas que também mantenha condições restritivas até que possamos ficar confiantes que esta segunda fase do processo inflacionista foi resolvida.” Lagarde vai continuar o “aperto”, como diz.

Ora, se a causa é a especulação, estas medidas só agravam a crise. E não há surpresa nenhuma na explicação que Lagarde admite. Robert Reich, que foi ministro do Trabalho de Clinton, afirma também que a razão da inflação está nas empresas: “Se os mercados forem competitivos, as empresas manterão os preços baixos para evitar que os concorrentes atraiam os seus clientes. Mas estão a subir os preços enquanto amealham lucros recorde. Como é que isto pode ser? Nesse sentido, o problema não é a inflação em si. É a falta de concorrência”, ou seja, é o poder empresarial. James Tobin, Prémio Nobel da Economia, apontava o problema já há 40 anos: “A inflação é o sintoma de uma contradição e de um conflito social e económico profundo. Não existe uma via intermédia. Os principais grupos económicos reclamam fatias do bolo que, somadas, são mais do que o bolo. A inflação é a forma de reclamarem a sua fatia e, como é expressa em termos nominais, conseguem uma conciliação temporária. Mas, à medida que estes conflitos em torno a poderes reais continua, a inflação acelera o seu ritmo.” Portanto, persistirão medidas que farão durar a estagflação. E os causadores desta recessão depois darão lições de democracia.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 30 de junho de 2023

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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