Quando um primeiro-ministro e a maioria do governo não nos representam, há uma coisa que não podemos fazer: ficar calados. Precisamos de continuar a gritar, a lutar, a bater com o pé.
O tempo do sebastianismo já lá vai. Já não estamos à espera de um salvador iluminado que apareça numa manhã de nevoeiro para pôr tudo em ordem. E ainda bem. Porque essa ideia só serve para nos adormecer. Este país só tem um salvador, e esse salvador somos nós. Mas nós só podemos ser o nosso próprio salvador se estivermos atentos, acordados e verdadeiramente informados. Porque somos nós que aqui trabalhamos, que aqui vivemos, que aqui aguentamos.
E, por isso, somos nós que ordenamos. E nunca este cliché fez tanto sentido. Nunca foi tão urgente dizê-lo, repeti-lo e, sobretudo, praticá-lo.
Mas olhemos para o que temos.
Temos um governo trapalhão, trocista e incompetente. Temos um primeiro-ministro que enche discursos de vazio, de palavras que, juntas, não dizem nada, acompanhadas de sorrisinhos sonsos que não resolvem problema algum. E temos episódios que, noutro contexto, fariam corar qualquer noção de responsabilidade, como a famosa empresa familiar que, aparentemente, achou que nunca daria em nada.
E, no meio disto tudo, ainda vamos tendo instituições que funcionam, como o Tribunal Constitucional, que vai segurando aquilo que não pode cair, ainda que haja quem acredite que ele é dispensável. E isso diz muito sobre o tempo em que estamos.
Mas a questão central não é só esta sucessão de episódios. É bem mais profunda.
É perceber para onde caminhamos.
Queremos avançar? Ou queremos pegar no cavalo de D. Sebastião e cavalgar alegremente de volta ao passado? Sabem verdadeiramente o que está lá atrás?
Fala-se muito de crescimento económico. Muito. Mas fala-se pouco, para não dizer nada, de como esse crescimento é distribuído. Porque crescer por crescer não é suficiente. É preciso questionar: Crescer para quem? Quem é que beneficia primeiro? E quem é que fica, mais uma vez, para trás?
Quando se governa com os olhos postos no mercado, nas empresas, nos grandes interesses, há sempre alguém que paga a conta. E esse alguém não é, quase nunca, quem está mais confortável.
Não se trata de dizer que empresas, patrões ou quem vive mais folgado não merecem proteção. Merecem. Claro que merecem. Mas há uma pergunta que devia ser o ponto de partida de qualquer decisão política: quem está mais vulnerável?
E a resposta é simples.
Somos nós. O comum trabalhador. Quem vive do seu salário. Todos os meses, contado. Quem vê direitos a desaparecerem aos poucos, no pacote laboral, nas condições de vida que se degradam sem pedir licença. São as populações que levam com temporais e ficam esquecidas. São as pequenas comunidades que ninguém ouve. É quem não consegue pagar uma casa. É quem vê combustíveis e energia a subir sem conseguir acompanhar.
Isto não é abstrato. Isto é a vida real.
E depois há o jogo do curto prazo. As medidas que ficam bem nos relatórios, que dão boa imagem, que fazem parecer que tudo está a andar. Mas e o longo prazo? E o país daqui a dez, vinte anos? Que país é este que estamos a construir, onde se cresce… mas não se reparte?
Uma democracia não vive disto. Não vive de discursos vazios nem de encenações.
Uma democracia saudável vive de cidadãos informados, atentos e participativos. Pessoas que leem, que questionam, que não engolem tudo, porque estão atentas a cada vírgula.
E se o povo é quem mais ordena, então que se note! Vamos à luta, camaradas!
Vamos exigir! Que a nossa voz se recuse a aceitar o inaceitável.
É que, neste momento, o que temos está longe, muito longe, de ser um governo que nos represente.
E, enquanto continuarmos a aceitar isso em silêncio, desinformados e a acreditar num novo Sebastião, há uma certeza que não falha: quem fica para trás… somos sempre nós.