Vi a piada a circular com a assinatura do influencer Kiko is Hot. A ideia é simples: se há quem continue a insistir que pessoas LGBTQIA+ precisam de “terapia de conversão”, então assumamos a lógica até ao fim dessa ideia. Reconheçam-nos como doentes e, por coerência, tratem-nos como o sistema trata qualquer doença. Podem começar com a baixa médica por tempo indeterminado e depois quem sabe um subsídio oriundo de uma incapacidade superior a 60%. E, já agora, um formulário próprio para justificar a ausência que poderá dizer algo do género: impossibilidade temporária para o exercício de funções por persistência de homossexualidade e/ou identidade de género.
O grande problema das terapias de conversão não começa naquelas sessões macabras, nem numa sala com um suposto profissional em conversão (seja lá o que isso for) com um relógio a marcar cinquenta minutos. Começa bem antes, na premissa de que existe algo a corrigir.
Em Portugal, esta conversa não nasce do vazio. Há uma petição, apoiada pelos setores da direita reacionária e populista, direcionada à Assembleia da República com milhares de assinaturas e que pretende reabrir o debate sobre a lei que criminaliza práticas de conversão, embrulhando o recuo numa narrativa de proteção e fim da ideologia de género. E há outra petição, em sentido contrário e com muita mais expressão em assinaturas, a pedir precisamente o óbvio: que não se normalize aquilo que já foi reconhecido como prejudicial e anticientífico. O país, de repente, volta a discutir se há vidas que são para ser forçadas a ser diferentes.
E aqui a ironia do “passem-nos a baixa” faz uma coisa útil: obriga a encostar a discussão à parede do quotidiano. Porque chamar doença a uma orientação sexual ou a uma identidade de género não é só um mero e simples insulto. É uma máquina inteira que muda de comportamento quando ouve essa palavra. Uma doença pede um diagnóstico, pede uma intervenção. Um qualquer cidadão que passa a existir sob condição clínica.
Se a premissa fosse verdadeira, então os peticionários que exigem o regresso destas terapias devem assumir que o Estado teria de tratar a condição como trata qualquer condição. Quem defende a conversão não quer, na prática, a parte inteira do pacote. Quer apenas o rótulo, porque o rótulo permite a moralização e a autoridade. Não quer as consequências. Não quer admitir que, se fosse mesmo uma doença, então o trabalho teria de acomodar, a escola teria de acomodar, a sociedade teria de pagar a conta da sua própria classificação. Querem o conforto de chamar de erro à existência livre de uma pessoa, sem o incómodo de assumir a responsabilidade política de a declarar incapaz. O truque é esse: patologizar sem pagar o preço da patologia.
Há um episódio histórico anedótico, mas bastante pertinente. Em 1979, na Suécia, quando a homossexualidade ainda era classificada como doença, diversos ativistas ocuparam serviços e protestaram contra essa classificação. Houve quem telefonasse para justificar faltas ao trabalho com a lógica oficial, dizendo, na prática: não posso ir trabalhar porque sou homossexual, portanto estou doente. Tratou-se de um gesto de inversão, usar a linguagem do poder contra o poder, até ele se envergonhar da própria categoria. Pouco tempo depois, a classificação foi removida.
Se me chamas doente, então trata-me como doente. Se me chamas incapaz, então justifica a incapacidade. Se dizes que preciso de tratamento, então assume publicamente que estás a instituir um regime onde pessoas perdem autonomia por serem quem são. A piada não é para gozar com a comunidade. A piada é para mostrar que as terapias de conversão só se aguentam enquanto não se levam a sério.
E o mundo já fez este caminho, tarde e a custo, precisamente porque percebeu que a patologia era uma violência brutal e estigmatizante. A homossexualidade esteve durante décadas catalogada como perturbação em manuais psiquiátricos e foi retirada do DSM pela Associação Americana de Psiquiatria em 1973, num processo que refletiu também bastante contestação social e evidência científica. Mais tarde, a Organização Mundial de Saúde deixou de a listar como doença no seu sistema de classificação em 1990, marco que ajudou a cristalizar uma ideia que hoje devia ser banal: uma orientação sexual não é, nem pode ser, um diagnóstico.
Querem reabilitar a velha lógica da patologização com uma roupa nova. E isso tem consequências muito concretas, sobretudo para pessoas mais novas, dependentes de famílias e de contextos onde o suposto cuidado pode facilmente ser sinónimo de controlo e de violências várias. A lei portuguesa que criminaliza estas práticas surgiu exatamente para impedir que a pressão, a culpa e a coerção sejam rebatizadas de acompanhamento.
É aqui que a ironia volta a ser necessária. Não para transformar um tema sério numa piada permanente, mas para evitar que a linguagem anestesie a realidade. Porque a terapia de conversão soa a uma coisa neutra, quase técnica, e a neutralidade é perigosa quando se trata de práticas que partem da premissa de que alguém é doente.
Por isso, se me pedem para entrar nesta lógica, eu entro até ao fim. Se é doença, então aceitem a consequência política: baixas, subsídios, incapacidade reconhecida, e o Estado a carimbar, sem vergonha, que uma parte da população é clinicamente incapaz. Se isto vos soa absurdo, ótimo. Era suposto soar. O absurdo é a radiografia fiel da premissa.
Acho que, enquanto sociedade, é tempo de largar, de uma vez por todas, a tentação de corrigir o outro para tornar o mundo mais confortável para quem nunca teve de justificar a própria existência. Não há terapias para converter aquilo que nunca foi doença. Fiquemos: com o essencial: somos todos pessoas, e, somos todos pessoas diferentes. Que belo que isso é!