A saúde no Antropoceno

porMário André Macedo

04 de abril 2024 - 23:33
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As alterações climáticas são um problema do presente. Não é a primeira vez que escrevo sobre a relação entre ambiente e saúde, mas hoje trago uma história atual e em desenvolvimento, que afeta vários países do sudeste africano, entre os quais Moçambique.

A história das doenças e desinformação é cíclica. No final do século XIX, um grande surto de cólera atinge Nápoles. As autoridades tentam conter o problema, mas a desinformação não precisa de redes sociais e propaga-se mais rapidamente que a bactéria. Há motins pela cidade e hospitais são queimados. Exatamente o mesmo acontece em Moçambique no século XXI.

As alterações climáticas não são uma preocupação do futuro. São um problema do presente. Não é a primeira vez que escrevo sobre a relação entre ambiente e saúde, mas hoje trago uma história atual e em desenvolvimento, que afeta vários países do sudeste africano, entre os quais Moçambique, com o qual temos profundos laços históricos e culturais.

O progresso feito na área da saúde encontra-se em risco de ser erodido, graças à ação das alterações climáticas. Chuvas intensas e concentradas provocaram inundações e o colapso das precárias redes de saneamento na região sudeste africana. Como consequência, Zâmbia, Moçambique e Malawi enfrentam surtos de cólera de proporções preocupantes.

A cólera nunca desapareceu. Mas nos últimos tempos tem voltado a ser uma real preocupação de saúde pública. Em 2021, 33 países tiveram de lidar com surtos desta doença, número que aumentou para 44 em 2022. Em 2023, a UNICEF registou cerca de 667 mil casos em todo o mundo, com 9 países a ultrapassar a marca das 10 mil infeções. A bactéria, que se aproveita das vulnerabilidades sociais das comunidades, conseguiu inclusive regressar a países como Síria e Líbano, onde há décadas não se encontrava presente.

Moçambique enfrenta o pior surto de cólera dos últimos 25 anos, com cerca de 45 mil casos e 170 mortes registadas desde o final de 2022. E a situação não se encontra perto de estabilizar. A violência do autodenominado estado islâmico na região de Cabo Delgado, contribui para que esta região seja particularmente afetada. As doenças não existem num vácuo, as condições sociais e políticas contribuem para o seu florescimento.

Na Zâmbia, mais de 20 mil casos e 700 mortes foram confirmados. Cerca de 4 milhões de crianças viram o seu calendário escolar adiado, prejudicando a aquisição de novas competências e o desenvolvimento do seu futuro. Num sistema de saúde cheio de fragilidades, uma ameaça desta magnitude rapidamente esgota os recursos disponíveis, expondo outros problemas. As chuvas e o calor que se fazem sentir criaram as condições para a proliferação do mosquito Aedes, pelo que à cólera, junta-se agora a malária. São os mais vulneráveis que ficam presos nesta sucessão de crises de saúde.

A história das doenças e desinformação é cíclica. No final do século XIX, um grande surto de cólera atinge Nápoles. As autoridades tentam conter o problema, mas a desinformação não precisa de redes sociais e propaga-se mais rapidamente que a bactéria. Há motins pela cidade e hospitais são queimados. Exatamente o mesmo acontece em Moçambique no século XXI, onde, só este ano, 91 infraestruturas de saúde foram atacadas e 27 pessoas perderam em vida. Os desafios de saúde pública não mudaram assim tanto, a desinformação continua a fazer vítimas e a prejudicar as pessoas.

A comunidade internacional tem feito pouco para ajudar a resolver este problema de saúde global. A Unicef pediu apenas dez milhões de dólares para dar resposta a este surto de cólera na região, mas só conseguiu angariar cerca de um terço deste valor. Portugal não pode ficar de fora. Vidas estão em risco, sete milhões de dólares não nos devia separar de oferecer um bom programa de combate à doença.

Tal como noutros lugares, o caso moçambicano permite ver de forma clara como é que as alterações climáticas exacerbam um problema prévio de pobreza, saneamento básico precário, habitação sem condições e violência. São um contributo decisivo para o aumento do número de casos, da carga de doença e para prender as pessoas a ciclos intergeracionais de pobreza-doença.

A lição também se aplica no hemisfério norte. Temos de preparar os sistemas de saúde para atuar num novo paradigma climático, sem esquecer que a resposta às desigualdades sociais e carências que afetam largas camadas da população são, cada vez mais, determinantes para o bem-estar coletivo. Novas doenças como o dengue começam a fixar-se na Europa, problemas antigos como mortalidade por excesso de calor tornam-se mais comuns e lesivos. A saúde precisa de se preparar para dar resposta aos desafios causados pela ação humana no clima.

Artigo publicado em Novo a 18 de março de 2024

Sobre o/a autor(a)

Mário André Macedo

Enfermeiro especialista em saúde infantil e mestre em saúde pública.
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