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Salvar a Casa do Alentejo, o comércio e a restauração de Lisboa

Desde março que não há clientes, o verão não foi metade do que devia ter sido e o natal pode nem acontecer. Desde o início da pandemia já encerraram 111 lojas na Baixa de Lisboa.

A Casa do Alentejo está em perigo porque não faz receitas suficientes para cobrir os seus gastos. Manteve todos os trabalhadores e está de portas abertas, mas desde março teve uma quebra de atividade na ordem dos 85%.

A Casa do Alentejo é um dos segredos mais mal guardados de Lisboa. Situada na Baixa, tem como missão a promoção e dinamização da cultura alentejana, mas faz muito mais do que isso, com o apoio a vários coletivos e projetos novos; e suporta a sua atividade com um restaurante alentejano – o que seria da cultura alentejana sem a sua gastronomia, apetece perguntar – que está às moscas, como tantos outros restaurantes na Baixa, porque nos últimos anos vivia da atividade turística que fugiu.

Sem apoio, a Casa do Alentejo não irá sobreviver à pandemia e isso seria uma perda irreparável para Lisboa, para o Alentejo e para o país. Esse apoio público tem de acontecer.

Infelizmente, a Casa do Alentejo é apenas um exemplo entre milhares de estabelecimentos comerciais e restaurantes que se encontram desesperados. Desde março que não há clientes, o verão não foi metade do que devia ter sido e o natal pode nem acontecer. Desde o início da pandemia já encerraram 111 lojas na Baixa de Lisboa.

A crise na Baixa de Lisboa é mais grave do que noutras zonas da capital porque se decidiu, erradamente, que aquela zona da cidade seria exclusivamente dedicada ao turismo. Concentraram-se hotéis, hostels, airbnb, restaurantes e lojas, mas não se diversificaram as atividades, garantindo habitação, serviços públicos e outro tipo de comércio. Construiu-se uma ‘Disneylândia ao ar livre’ na Baixa e sem turistas não há solução para a zona nobre da cidade.

Outras zonas de Lisboa, menos dependentes do turismo, estão a suportar melhor o impacto da crise, e isso deve ensinar-nos que no futuro precisamos de diversificar o comércio e os serviços em toda a cidade.

A queda do turismo é um problema grave, até porque viviam dessa atividade mais de 150 mil pessoas, na sua maioria desempregadas há 10 meses, algumas sem qualquer apoio porque eram precários e mal pagos. Estas pessoas têm de ser apoiadas e é muito mau sinal que o Governo não tenha previsto no Orçamento do Estado para 2021 uma Prestação de Cidadania que possa ajudar estas pessoas que não têm descontos suficientes para aceder aos apoios sociais tradicionais.

Assim, não é de estranhar que tenha sido no Rossio que se concentraram este sábado os donos de lojas, restaurantes e bares de Lisboa, e que os seus trabalhadores também tenham aderido ao protesto. Estas pessoas estão desesperadas, não vislumbram o fim da crise sanitária e consideram os apoios manifestamente insuficientes.

Sim, é verdade, os apoios são mesmo insuficientes e não vale a pena o Governo tapar o sol com a peneira e anunciar que já gastou mil milhões de euros com o setor e que irá compensar os fins de semana de confinamento com 20% da faturação perdida. Os dados oficiais mostram que Portugal é dos países europeus que menos gasta no combate à Covid-19 e à crise social. Acresce que a segunda vaga da pandemia parece não ter sido bem preparada, até porque o Governo decidiu não usar os meios que o parlamento libertou com o Orçamento Suplementar de 2020.

O desespero vai continuar a aumentar se não houver apoios concretos ao comércio e à restauração e negar essa necessidade de apoio é dar mais força às forças da direita populista que se têm aproveitado da crise para crescer. O Governo tem de fazer mais do que meros anúncios mediáticos, tem de apoiar a economia real.

Artigo publicado no “Jornal Económico” a 16 de novembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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